César Mansueto Giulio Lattes

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César Mansueto Giulio Lattes, físico brasileiro, nasceu em Curitiba a 11 de julho de 1924, filho de Giuseppe Lattes e de Carolina Maria Rosa Lattes. Foi casado com D. Martha Siqueira Neto Lattes com quem teve quatro filhas que lhe deram e nove netos. Morreu em 08/03/2005 de parada cardíaca. Foi um dos descobridores da partícula subatômica méson pi (ou píon) e por esse motivo é considerado o maior físico experimental brasileiro.

Biografia

Iniciou seus estudos primários na Escola Americana de Curitiba entre 1929 e 1933 e terminou o secundário no Instituto Médio Dante Alighieri, em São Paulo, de 1934 a 1938. Ingressou no Departamento de Física da Faculdade de Filosofia e Ciências e Letras da USP, concluindo o Bacharelado em 1943; recebeu desta Universidade o Título de Doutor Honoris Causa em 1948. Foi Professor Titular aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro, do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas e da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).


Sua carreira científica se iniciou na década de 40 no Departamento de Física da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, quando publicou um trabalho científico sobre a abundância de núcleos no universo, sob a orientação de Gleb Wataghin.


Desde de então teve seu nome relacionado a eventos científicos de grande repercussão como a descoberta da partícula extra-nuclear méson pi em 1947, em colaboração com G.Occhialini e C.F.Powell que foi um marco em sua carreira e na história da ciência do Brasil.


A produção artificial da partícula se deu em 1948, com Lattes em associação com Eugene Gardner, no recém-construído sincro-ciclotron da Universidade da Califórnia, em Berkeley, o que marcou o início da corrida para a construção de aceleradores de partículas cada vez mais potentes, fato que caracterizou a física nuclear do pós-guerra.


Colaborou ativamente para a institucionalização da ciência, no Brasil e na América do Sul, fato ligado diretamente ao seu regresso e permanência definitiva no continente sul-americano, onde passou a liderar um grupo científico que, em 1949, criou o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, Instituto que teve a iniciativa de formar o Instituto de Matemática Pura e Aplicada, a Escola Latino-Americana de Física, o Centro Latino-Americano de Física, enquanto se destacava pela atividade de pesquisas em nível internacional, a modernização dos currículos de ensino superior da física e as de formação do pessoal que constitui hoje parcela significativa da liderança científica atual da física brasileira.


Ainda nesse ano, junto com colegas bolivianos, cria em La Paz as condições para o que viria a ser o Laboratório de Físicas Cósmicas, a partir de uma antiga estação de observações meteorológicas, onde obtivera os dados que levaram à descoberta do píon. Desde logo esse Laboratório se transformava em centro científico de interesse internacional, abrigando em suas dependências equipamentos e cientistas de todas as partes do mundo que ali desenvolveram importantes pesquisas no campo da radiação cósmica.


Com seu retorno ao Brasil, destacou-se também na reunião de esforços que levaram à criação do Conselho Nacional de Pesquisas - atual Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - em 1951, desejo antigo da comunidade científica brasileira daquela época, constituída em sua maioria por pesquisadores nas ciências biológicas; a eles vieram se aliar grupos de interessados no desenvolvimento da tecnologia nuclear, mas sem poder de transação com a burocracia, face à escassa tradição e à falta de autoridade científica reconhecida naqueles domínios. O Conselho Nacional de Pesquisas deu novo impulso à pesquisa científica e tecnológica no Brasil, tendo sido Lattes membro de seu primeiro Conselho Diretor.


Diretor Científico do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas desde a fundação, e principal consultor científico nos primeiros anos do Laboratório de Chacaltaya, deixa esses encargos em 1955 para uma curta temporada nos Estados Unidos. Recusando convites os mais honrosos, como o de substituir o falecido Enrico Fermi na chefia do seu Instituto na Universidade de Chicago, retorna ao Brasil dois anos depois para criar, na USP, um laboratório para estudos de interações a altas energias na radiação cósmica. Participa, em 1962, do grupo pioneiro que organizava a Universidade Estadual de Campinas, transferindo-se para essa cidade no ano seguinte e dando início à formação de seu Instituto de Física. Em curto período essa universidade conquistou elevado conceito nos meios universitários brasileiros e, em particular, seu instituto de física é creditado como dos melhores no Brasil, cercado de grande prestígio e projeção internacional.

Não obstante a singular repercussão da descoberta do píon, as contribuições não esgotam, absolutamente, nesse memorável feito. Dono de rara versatilidade seus trabalhos incluem contribuições do maior mérito em variados campos da física moderna, desde pesquisas teóricas sobre as origens e abundância de espécies nucleares no universo e eletrodinâmica clássica, até desenvolvimentos instrumentais, na área das emulsões nucleares, estes últimos cercados de auspiciosas aberturas; como membro do grupo de Bristol, na segunda metade dos anos 40, é participante da brilhante seqüência de desenvolvimentos que culminaram na elevação das emulsões nucleares, antes precários dispositivos de registro ionográficos, à categoria de instrumentos de medição. Esses trabalhos não somente viabilizaram a descoberta do píon,como propriedades físicas. A partir de 1962 lidera a reunião de grupos brasileiros e japoneses num projeto de longo alcance sobre interações a altas energias na radiação cósmica: a Colaboração Brasil-Japão. Desde então os resultados pioneiros desse grupo, em domínios então fora do alcance dos mais potentes aceleradores em operação ou em projeto, ganharam elevado prestígio nos meios científicos internacionais, considerados como promissoras aberturas para expansão das fronteiras da física moderna.

Membro da Academia Brasileira de Ciências, da União Internacional de Física Pura e Aplicada, do Conselho Latino-Americano de Raios Cósmicos, das Sociedades Brasileira, Americana, Alemã, Italiana e Japonesa de Física, entre outras associações, ocupou numerosas vezes posições de conselheiro, quando contribuiu com sua experiência e visão pioneira para a formulação de políticas e diretrizes de ação. Tem sido alvo de repetidas homenagens por parte de organizações oficiais e privadas no Brasil e no exterior e inúmeras vezes foi escolhido paraninfo ou patrono de contigentes de novos estudantes, formandos em ciências exatas e aplicadas. Entre prêmios, medalhas e comendas, recebeu, no Brasil, o Prêmio Einstein de 1950, o Prêmio Fonseca Costa, do CNPq, em 1958, a Medalha Santos Dumont em 1989, a Medalha comemorativa dos 25 anos da SBPC e placa comemorativa dos 40 anos dessa sociedade, o símbolo do Município de Campinas, em 1992, e muitos outros. Orgulha-se, particularmente, da iniciativa de dezenas de municípios brasileiros que lhe deram o nome a escolas municipais, bibliotecas, praças, ruas.

Sua atuação no continente sul-americano foi reconhecida pelo governo boliviano, que lhe concedeu o título de cidadão honorário daquele país, em 1972, pelo governo da Venezuela, que lhe conferiu a comenda Andrés Bello em 1977, e pela Organização dos Estados Americanos, que lhe outorgou o prêmio Bernardo Houssay, em 19788; em 1987 recebeu o Prêmio de Física da Academia do Terceiro Mundo.

Pessoa que oferece o calor de sua intimidade indistintamente a quantos o procuram; vê com acentuada preocupação os usos destorcidos dos conhecimentos científicos no mundo moderno e manifesta suas opiniões sem reverências, à revelia de preconceitos e interesses menores. Observa com o méson pi que descobriu. Esta será, talvez, a maior gratificação que espera receber de sua vida devotada ao progresso da ciência e combate ao subdesenvolvimento.


Categoria:Físicos da Itália categoria:Físicos do Brasil

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