Ciência e tecnologia medieval
Keywords: Ciência e tecnologia medieval, Agricultura, Alberto Magno, Antiguidade clássica, Aristóteles, Astrolábio, Astronomia, Bernardo de Claraval
Este artigo fala da ciência e das descobertas tecnológicas no período da Idade Média, que é o período intermédio numa divisão esquemática da História da Europa em quatro "eras", a saber: a Idade Antiga, a Idade Média, a Idade Moderna e a Idade Contemporânea. Essa "era" durou aproximadamente mil anos que se caracterizaram pelo predomínio do Cristianismo em todas as esferas da vida humana na Europa. O período também pode ser chamado de medievo e o adjetivo relacionado com ele é medieval.
Noções preconceituosas sobre a Idade Média já foram amplamente propagadas, inclusive por motivações políticas, e ainda hoje permanecem mitos no imaginário popular. Isso também é verdadeiro quando se trata das noções da ciência no período: ele é muitas vezes é chamado pejorativamente de idade das trevas e supõe-se que ele não teria tido nenhuma criação filosófica ou científica autônoma. Embora nenhum historiador sério utilize mais a expressão "idade das trevas" para sugerir atraso cultural, ainda hoje, mesmo nas escolas, são ensinadas noções equivocadas como a idéia errada de que os estudiosos medievais acreditavam que a terra era plana (conferir o erro em: "o mito da terra plana").
É dito que na "noite de mil anos" que teria sido a era medieval, a ciência conheceu um longo período de "falta de inspiração" em comparação com a produção científica clássica. Mas fica a pergunta de se comparar a Idade Média, na qual a Europa começou em frangalhos, com o período áureo da antiguidade clássica seria uma comparação adequada. Note-se, que a produção científica do Império Romano também empalidecia diante das descobertas do mundo grego, mesmo com o longo período de prosperidade proporcionado pela "Pax Romana".
Ciência e tecnologia medieval
Ciência no Ocidente Europeu
A civilização romana era um povo de orientação prática. Apesar de maravilhados com as descobertas gregas, não chegaram a formar universidades ou outras instituições que buscassem especificamente entender melhor o universo ou o mundo natural. Como a classe dominante romana era bilíngüe, também não se via necessidade de traduzir os tratados científicos produzidos pela civilização grega. Quando começam as migrações bárbaras e o mundo romano se desestrutura, o ocidente europeu perde contato com o oriente e a língua grega é esquecida. A Europa Ocidental perde o acesso aos tratados originais dos filósofos clássicos e é deixada apenas com as versões truncadas desse conhecimento disponíveis em latim. É como se nos dias de hoje perdêssemos quase todos os trabalhos científicos e sobrassem apenas os textos de revistas destinadas ao consumo popular.
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O homem instruído desses séculos era quase sempre um clérigo para quem o estudo dos conhecimentos naturais era uma pequena parte da escolaridade. Esses estudiosos viviam numa atmosfera que dava prioridade à fé e tinham a mente mais voltada para a salvação das almas do que para o questionamento de detalhes da natureza. Além disso, a vida quase sempre insegura e economicamente difícil dessa primeira parte do período medieval mantinha o homem voltado para as dificuldades do dia-a-dia. Desse modo, as atividades científicas praticamente se reduziram as citações e comentários de obras que faziam referência à antiguidade clássica, esses comentários eram às vezes cheios de erros, já que os textos usados como referência, (as obras que restaram em latim), tinham informações truncadas e até deturpadas.
Esse cenário começa a mudar, especialmente com a contenção das últimas ondas de invasões estrangeiras no século X. Seguiu-se uma fase de relativa tranqüilidade em relação às ameaças externas, que coincide com um período de condições climáticas mais amenas. Os séculos XI e XII são séculos de mudanças sociais, políticas e econômicas. Evoluções técnicas possibilitam o cultivo de novas terras e aumenta a diversidade dos produtos agrícolas, que sustentam uma população que cresce rapidamente. O comércio está em franca expansão, ocorre o desenvolvimento de rotas entre os diversos povos que reduzem as distâncias, facilitando não só o comércio de bens físicos, como também a troca de ideais entre os países. A economia prospera e nasce um novo mundo cosmopolita que se alimenta do turbilhão das cidades em crescimento e participa de um movimento intelectual em ascensão.
Nesse ambiente cultural receptivo começam a ser abertas novas escolas ao longo de todo o continente, inclusive em cidades e vilas menores. Por volta de 1200 são fundadas as primeiras universidades – Paris, Bologna e Oxford – (em 1500 já seriam mais de 70). Também se inicia num forte movimento de tradução de documentos do árabe e do grego para o latim. Isso faz o conhecimento do mundo antigo anteriormente "perdido" tornar-se novamente disponível para os eruditos europeus. Ocorre grande progresso em conhecimentos como a astronomia, a matemática, a biologia e a medicina.
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- Guilherme de Auvergne, bispo de Paris (falecido em 1249), promoveu tais investigações [científicas] e ridicularizou os que acreditavam ver um ato de Deus em qualquer acontecimento extraordinário. O bispo Grosseteste, de Lincoln, estava tão adiantado no estudo de matemáticas, óptica e ciência experimental, que Roger Bacon o colocou no mesmo plano de Aristóteles. As ordens dominicanas e franciscanas não fizeram objeção alguma aos estudos científicos de Alberto Magno ou de Roger Bacon. (Will Durant, História da civilização ocidental: volume IV. p.882).
Entre os nomes mais importantes do pensamento racional e do conhecimento científico nesse período estão: Alberto Magno (1200-1280); William de Ockham (1285-1349); Nicole d'Oresme (~1320-1382); João Duns Scot (~1266-1308) e Tomás de Aquino (1227-1274). Em especial, os franciscanos Robert Grosseteste (1175-1253) e Roger Bacon (1214-1292) trazem generosas contribuições com seus métodos, que foram precursores da metodologia científica moderna e seus avanços no campo da óptica, que foram importante contribuição tecnológica.
- O tardio movimento científico medieval concentrou-se na ciência física (...). Foi um trabalho que deveria ter continuidade nos séculos seguintes, na época que veio a se chamar de Renascença e no período que é muitas vezes denominado de Revolução Científica. E é nas ciências físicas que vemos mais claramente a emergência da ciência moderna, baseada, em grande parte, nas atitudes inquiridoras dos sábios do fim da Idade Média. (Colin A. Ronan, "História ilustrada da ciência").
Tecnologias no Ocidente Europeu
Se for verdade que a civilização romana não ficou famosa por suas descobertas em termos de ciências naturais, por outro lado, a grandeza de seus feitos tecnológicos até hoje impressiona. Mas vale ressaltar que mesmo durante o apogeu do Império Romano, vastas extensões do ocidente europeu eram ao mesmo tempo pouco romanizadas e totalmente ruralizadas. Além disso, algumas das regiões que anteriormente eram mais desenvolvidas ficavam onde o percurso de invasores bárbaros era mais intenso, provocando a fuga em massa de moradores (caso da Espanha e do norte da Itália). De qualquer forma, quando a sociedade romana se desestruturou não havia mais escravos, dinheiro ou estabilidade política para manter a infra-estrutura deixada por eles. Várias técnicas, como a fabricação e manuseio de vidros e a noção de perspectiva nas pinturas, acabaram abandonadas e precisaram ser redescobertas mais tarde.
[[Imagem:Maciejowski Tower of Babel.jpg|thumb|left|O período de 1100 a 1300 já foi chamado de Revolução Industrial da Idade Média, pelas inovações na forma de utilizar os meios de produção e o aumento radical no número de invenções.]]Com o tempo a sociedade foi se estabilizando e, em certos aspectos, no século IX o retrocesso causado pelas migrações já estava revertido. Na virada do milênio a sociedade européia ocidental já não apresentava mais as mesmas características de medo e confusão que marcaram os séculos anteriores. Por volta de 1100 o mesmo ciclo de prosperidade que impulsionou a produção científica traz também grande impacto na área da técnica. Ocorrem muitas inovações na forma de utilizar os meios tradicionais de produção. No setor agrícola, por exemplo, foi essencial o desenvolvimentos de ferramentas como a charrua, o peitoral, o uso de ferraduras, e a utilização de moinhos d'água. O estilo mais rústico românico, dá lugar ao gótico que foi possibilitado por diversos avanços nas técnicas arquitetônicas que foram aplicadas à construção das catedrais.
Esse período já foi chamado de a Revolução Industrial da Idade Média, pois aliou a importação de tecnologias com um aumento radical no número de invenções. Presenciaram-se descobertas como as dos óculos no século XIII, da prensa móvel no século XV, o aperfeiçoamento da tecnologia da pólvora (descoberta na China) e a invenção dos relógios mecânicos, que se espalharam nos ambientes urbanos. Muito importantes foram também avanços em instrumentos como a bússola e o astrolábio, que, somados às mudanças na confecção de mapas e à invenção das caravelas, tornaram possível a expansão marítimo-comercial Européia do início da Idade Moderna.
O legado científico e tecnológico medieval
No final da Idade Média, por volta do século XIV, uma sensível piora climática e eventos como a peste negra causam fortes abalos nas estruturas daquela sociedade. Mas o ocidente fortalecido pelas transformações recentes mostrou-se capaz de contornar o impacto inicial dessas adversidades, chegando a demonstrar um crescimento tecnológico e científico ainda mais exuberante no período subseqüente: a Idade Moderna.
O nascimento e desenvolvimento das universidades, juntamente com as primeiras sementes do que se tornaria a metodologia científica contemporânea foram heranças importantes do período. Os avanços obtidos na ótica logo iriam gerar aparelhos como o microscópio e o telescópio. Esses dois instrumentos juntamente com a prensa móvel, (fruto medieval), são vistos até hoje como os equipamentos mais importantes já criados para o avanço do conhecimento humano. A tecnologia das grandes navegações permitirá nos séculos futuros a descoberta de um número extraordinário de novas espécies de animais e plantas, além de novas formações geológicas e climáticas.
Os europeus do final da idade média provavelmente não suspeitavam como os eventos futuros seriam grandiosos. Muito em breve aquela civilização que herdara um império em frangalhos iria ter a ousadia de tentar dominar o mundo e, por mais que os homens do renascimento e de momentos históricos subseqüentes às vezes fizessem questão de esquecer, muito disso foi possibilitado pelas conquistas medievais.
