Cruzada
Keywords: Cruzada, 1054, 1071, 1095, 1100, 1140, 1145, 1147, 1152
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Antecedentes
Depois de Maomé falecer (632), as vagas de exércitos árabes que tinham servido como exércitos mercenários lançam-se com um novo fervor à conquista dos seus antigos senhores, os bizantinos e persas sassânidas que passaram décadas a guerrear-se. Estes depois de algumas derrotas esmagadoras, demoram 30 anos a ser destruídos, mais graças à extensão do seu império do que à resistência: o último Xá morre em Cabul em 655. Os bizantinos resistem melhor: cedem uma parte da Síria, a Palestina, o Egipto, o norte de África, mas sobrevivem e mantém a sua capital. Num novo impulso, os exércitos conquistadores lançam-se então para a Índia, a Península Ibérica, o sul de Itália e França, as ilhas mediterrânicas. Tornado um império tolerante e brilhante do ponto de vista intelectual e artístico, o império muçulmano sofre de um gigantismo e um enfraquecer guerreiro e político que vai ver aos poucos as zonas mais longínquas tornarem-se independentes ou então serem recuperadas pelos seus inimigos, que guardavam na memória a época de conquista: bizantinos, francos, reinos neo-godos.
No século X, esse desagregar acentua-se em parte devido à influência de grupos de mercenários convertidos ao islão e que tentam criar reinos próprios. Os turcos seljúcidas (não confundir com os turcos otomanos antepassados dos criadores do actual estado da Turquia), procuraram impedir esse processo e conseguem unificar uma parte desse território. Acentuam a guerra contra os cristãos, conquistam Jerusalém e esmagam as forças bizantinas em Mantzikiert em 1071 conquistando assim o leste e centro da Anatólia. Estes, depois de um período de expansão nos séculos X e XI estão em sérias dificuldades: vêm-se a braços com revoltas de nómadas no norte da fronteira, e com a perda dos territórios italianos, conquistados pelos normandos. Do ponto de vista interno, a expansão dos grandes domínios em detrimento do pequeno campesinato resultara numa diminuição dos recursos financeiros e humanos disponíveis ao estado. Como solução, o imperador Aléxis Commeno decide apelar ao ocidente para o envio de mercenários que o ajudem enfrentar a ameaça seljúcida.
Assim começavam as cruzadas.
Oito Cruzadas (Segundo a Tradição)
Primeira Cruzada
Ao pregar e prometer a salvação a todos os que morressem em combate contra os pagãos (leia-se, muçulmanos) em 1095, o Papa Urbano II estava a criar um novo ciclo. É certo que a ideia não era totalmente nova: parece que já no séc. IX se declarara que os guerreiros mortos em combate contra os muçulmanos na Itália mereciam a salvação. Mas desta a salvação não era prometida numa situação excepcional. As várias versões que nos restam do seu apelo mostram que Urbano relatou também os infortúnios dos cristãos do oriente, e sublinhou que se até então os cavaleiros do ocidente habitualmente combatiam entre si perturbando a paz, poderiam agora lutar contra os verdadeiros inimigos da fé, colocando-se ao serviço de uma boa causa. O apelo foi feito a todos sem distinção, pobres ou ricos.
E foi de facto o que sucedeu. Mas os ricos e pobres rapidamente formaram cruzadas separadas.
O monge Pedro, o Eremita, graças a suas pregações comoventes, conseguiu reunir uma multidão. Auxiliado por um Cavaleiro, Gautier Sans Avoir (Galtério Sem a Vez), os peregeinos atravessaram a Alemanha, Hungria, Bulgária, chegando em péssimas condições à Constantinopla. Mal equipada e mal alimentada, massacrou judeus pelo caminho, pilhou e destruiu. O imperador bizantino Aleixo Commeno, desejando afastar esse "bando turbulento" de sua capital, procurou incentivá-los a atacar os infiéis. Foi um desastre, pois a Cruzada dos Mendigos foi arrasada pelos turcos. Somente um reduzido grupo de integrantes conseguiu juntar-se à cruzada dos cavaleiros.
A cruzada dos cavaleiros, possuindo recursos, embora progredindo devagar, fez um acordo com o imperador de bizâncio de lhe devolver os territórios conquistados aos turcos. Liderada por grandes senhores, levava quer proprietários, quer filhos segundos da nobreza. Esse acordo seria desrespeitado, à medida que o mal-entendido entre as duas partes cresceria. Os bizantinos pretendiam um grupo de mercenários solidamente enquadrados ao qual se pagasse o soldo e que obedecesse às ordens - não aquelas turbas indisciplinadas; os cruzados não estavam dispostos, depois de tantos sacrifícios a entregar o que obtinham. Antioquia, a 1ª cidade conquistada depois de um longo cerco e um saque terrível (1098), foi guardada por Bohemundo, o chefe dos normandos. Godofredo de Bulhão conquistou Jerusalém em 1099, ficando só com o título de protector; à sua morte Balduíno seu irmão proclamou-se rei. Muitos dos combatentes retiraram-se uma vez conquistada Jerusalém (incluindo os grandes senhores), mas um núcleo ficou (cálculos chegam a falar de algumas centenas de cavaleiros e um milhar de homens a pé). As cidades principais (como Antioquia, Edessa) tornarem-se capitais de principados e reinos (embora Jerusalém fosse de certo modo o centro político e religioso), com outras marcas a protegê-los. O sistema feudal foi transplantado para oriente com algumas alterações: muitas vezes, em vez de receber feudos, os cavaleiros eram pagos com direitos ou rendas (modalidade que existia também na Europa). As cidades mercantis italianas vão-se tornar fundamentais para a sobrevivência desses estados: permitiram a chegada de reforços e interceptar os movimentos das esquadras muçulmanas, tornando o mediterrâneo novamente um mar navegável pelos ocidentais. Mas rapidamente os muçulmanos iriam reagir.
De qualquer modo, nos anos seguintes, com a euforia da vitória, mais voluntários seguiram para oriente. Os contingentes seguiam por nacionalidades, continuando pouco organizados. As motivações eram variáveis: se alguns pretendiam obter novos feudos, ou redimir-se das suas faltas, havia também aqueles que "apenas" pretendiam ganhar batalhas, cobrir-se de glória, bênçãos espirituais, e voltar para a sua terra. Por volta do ano 1100, uma nova expedição parte. Chegados a Constantinopla levantam-se discussões com os bizantinos que estavam fartos de ter aqueles vizinhos incómodos que pilhavam a terra, portavam-se de uma forma muito mais brutal em guerra, e ficavam com o que conquistavam (para além das diferenças culturais e religiosas). Entretanto, os turcos estavam a unificar-se para tentar fazer face a estas ameaça. Evitando combates directos até ao último momento contra a cavalaria pesada cristã, usaram tácticas de emboscadas. Em Mersivan, esmagaram um dos exércitos cristãos (o dos lombardos e francos) que fora abandonado pelos seus líderes e cavaleiros (que fugiram). Estes foram severamente criticados pela fuga, assim como Alexius imperador de Bizâncio por não ter dado apoio.
Outro grupo, o exército de Nivernais, também foi destruído de forma similar (com fuga de líderes incluída). A expedição da Aquitânia portou-se melhor: ao menos os cavaleiros ficaram a combater e morrer juntamente com o povo. Alguns poucos conseguiram fugiram para Constantinopla. Três exércitos aniquilados em dois meses, enquanto que o pequeno exército de Jerusalém (com o membros da 1 cruzada) derrotava um exército egípcio. Por alguns anos, não foram pregadas mais cruzadas, e os territórios cristãos no oriente tiveram de se aguentar por conta própria.Assumem como padroeiro São Jorge da Capadócia, exemplo de cavaleiro cristão, e seu brasão de armas, a cruz vermelha num escudo branco.
Segunda Cruzada (1147-1149)
Em 1145 é pregada uma nova cruzada por Eugénio III. Desta vez foram reis que responderam ao apelo: Luís VII da França, Conrado III da Alemanha, para nomear os mais importantes. Curiosamente, os contingentes flamengos e ingleses acabaram por conquistar Lisboa e voltar para as suas terras na sua maioria, uma vez que eram concedidas indulgências para quem combatia na Península Ibérica. O exército de Conrado acabou esmagado pelos turcos num momento de repouso. O que sobrou, juntou-se aos franceses, com o apoio dos templários. Com algumas dificuldades de transporte, mais uma vez uma parte do exército teve de ser abandonado para trás (sobretudo os plebeus a pé), e estes tiveram de abrir caminho contra os turcos. Luís VII e Conrado em Jerusalém, depois de algumas discussões, acabaram por ser convencidos a atacar Damasco, mas ao fim de poucos dias tiveram que se retirar perante a ameaça de uma parte dos nobres fazê-lo por conta própria. O resultado desta nova cruzada fora miserável (se exceptuarmos a conquista de Lisboa). Nenhuma nova cruzada foi lançada até a um novo acontecimento: a conquista de Jerusalém pelos muçulmanos em 1187. Os cristãos enfrentavam um adversário decidido, Saladino.
Terceira Cruzada (1189-1192)
A Terceira Cruzada, pregada pelo Papa Gregório VIII após a tomada de Jerusalém por Saladino em 1187, foi denominada Cruzada dos Reis. Dela participaram Filipe Augusto (França), Frederico Barbaruiva (Sacro Império Romano Germânico) e Ricardo Coração de Leão (Inglaterra). O imperador Frederico Barbaruiva, atendendo os apelos do papa, partiu com um contingente alemão de Ratisbonne e tomou o itinerário danubiano atravessando com sucesso a Ásia Menor,porém, afogou-se na Cilícia ao atravessar o Sélef (hoje Goksu). A sua morte representou o fim prático desse núcleo. Os reis de França e Inglaterra, passaram o tempo todo a querelar-se, até que aquele se retirou. Se Ricardo Coração de Leão conseguiu alguns actos notáveis (a conquista de Chipre, Acre, Jaffa e uma série de vitórias contra efectivos superiores) também não teve pejo em massacrar prisioneiros (incluindo mulheres e crianças). Com Saladino, teve um adversário à altura, combatendo e travando um subtil táctico. Em 1192 acabou-se por chegar a um acordo: os cristãos mantinham o que tinham conquistado e obtinham o direito de peregrinação a Jerusalém (que ficava em mãos muçulmanas). Se esse objectivo principal falhara, alguns resultados tinham sido obtidos: Saladino vira a sua carreira de vitórias iniciais entrar num certo impasse e o território de Outremer (o nome que era dado aos reinos cruzados no oriente) sobrevivera.
Quarta Cruzada (1202-1204)
A quarta cruzada... Pode-se-lhe verdadeiramente chamar cruzada? O Papa Inocêncio III apelou a uma cruzada em 1198 para conquistar Jerusalém (o objectivo falhado da Terceira Cruzada), mas os preparativos começariam 2 anos depois. Vários grandes senhores trouxeram exércitos e estipularam um acordo com Veneza que transportaria essas tropas na sua frota em troca de uma quantia. O problema é que muitos dos senhores acabaram por não ir, e os que foram não tinham condições para pagar o valor estipulado (que era fixo). Foi criado um novo acordo então: os cruzados conquistariam Zara, uma cidade veneziana na Dalmácia que se revoltara em troca de um adiamento do pagamento. Entretanto chegaram notícias de Bizâncio. O Imperador Isaac II fora derrubado pelo seu irmão Alexius III e fora cegado. Ora o filho de Isac II, de nome Alexius IV conseguira fugir e apelara aos cruzados para o ajudarem: em troca de o colocarem no trono prometia-lhes dinheiro e os recursos do império para a conquista de Jerusalém. Ainda hoje os historiadores discutem se as coisas se passaram assim ou se foi uma justificação para o que se iria suceder. Os cruzados aceitaram imediatamente uma vez que isso parecia resolver os seus problemas. Partiram em 1202. O Papa considerou que se atacassem território cristão (nomeadamente Zara) ficariam excomungados. A cidade foi conquistada e depois de deixarem passar o Inverno atacaram Constantinopla. A cidade resistiu, mas o imperador Alexius III acabou por fugir com o tesouro da cidade. Com novos impostos a ser lançados para pagar as promessas feitas aos cruzados, rapidamente a população ficou à beira da revolta. Alexius V, um parente afastado fez um golpe matando Alexius IV e colocando novamente na prisão Isaac II que fora libertado pelos cruzados e governara com o filho. Os cruzados decidiram então conquistar em proveito próprio o império, nomear um imperador latino e dividir os territórios. Alexius V fugiu com algum tesouro e a cidade foi saqueada pelos latinos durante 3 dias. Estátuas, mosaicos, relíquias, riquezas acumuladas durante quase um milénio foram pilhadas ou destruídas durante os incêndios. A cidade sofreu um golpe tão terrível que nunca mais conseguiu se recompor, mesmo depois de voltar a ser grega em 1261. E assim terminou a IV cruzada, pois ninguém pensou mais em dirigir-se para Jerusalém: a maioria regressou com o que roubara, alguns ficaram com feudos no oriente.
Cruzada das Crianças
Entre a Quarta e a Quinta Cruzada houve a chamada Cruzada das Crianças. Foi um desastre, pois a maioria das crianças morreu de fome ou de frio. As que sobreviveram foram escravizadas pelos turcos. A idéia teria sido que só aqueles que tinham "coração puro", no caso as crianças, poderiam não ser derrotados.
Quinta Cruzada (1217-1221)
Também pregada por Inocêncio III, partiu em 1217 e foi liderada por André II, rei da Hungria, e por Leopoldo VI, duque da Áustria. Decidiu-se que para se conquistar Jerusalém era necessário conquistar o Egipto primeiro, uma vez que este controlava esse território. Desembarcados em São João D'Acre, decidiram atacar Damietta, cidade que servia de acesso ao Cairo, a capital. Depois de conquistar uma pequena fortaleza de acesso aguardaram reforços e meteram-se a caminho. Depois de alguns combates, e quando tudo parecia perdido, uma série de crises na liderança egípcia, permitiam os cruzados ocupar o campo inimigo. O sultão acabou por oferecer o reino de Jerusalém e uma enorme quantia se os cristãos retirassem; o cardeal Pelágio que se tornara num dos chefes da expedição acabou por convencer os restantes a recusar. Começaram a cercar Damietta e depois de algumas batalhas sofreram uma derrota. O sultão renovou a proposta, mas foi novamente recusada. Depois de um longo cerco que durou de Fevereiro a novembro a cidade caiu. Os conflitos entre os cruzados agudizaram-se e perdeu-se tanto tempo que os egípcios recuperaram forças. Reforços até 1221 chegaram aos cristãos. Lançaram-se numa ofensiva, mas os muçulmanos foram retirando e levando os cruzados a uma armadilha; sem comida e cercados acabaram por ter de chegar a um acordo: retiravam do Egipto e tinham as vidas salvas.
Sexta Cruzada (1228-1229)
Foi liderada pelo imperador Frederico II, que tinha sido excomungado pelo Papa. Ele partiu com um exército que foi diminuindo com as deserções, e uma semi-hostilidade das forças cristãs locais devido à sua excomunhão pelo Papa. Aproveitando-se das discórdias entre os muçulmanos, Frederico II conseguiu, por intermédio da diplomacia, que os turcos lhe entregassem Jerusalém, Belém e Nazaré. Mais tarde, essas regiões cairam novamente sobre domínio dos turcos.
Sétima Cruzada (1248-1250)
Foi liderada pelo rei da França Luís IX (São Luís). Ele desembarcou diretamente no Egito e, depois de alguns combates, conquistarou Damietta. Novamente o sultão ofereceu Jerusalém e novamente foi recusado. Em Mansurá, depois de quase terem vencido, os cruzados são derrotados pela imprudência do irmão do rei, Roberto de Artois. Depois de uma retirada desastrosa, o exército puramente rendeu-se. Luís IX caiu prisioneiro e os cristãos tiveram de pagar um pesado resgate pela sua libertação. Só a resistência da rainha francesa em Damietta, permitiu que se conseguisse negociar com os egípcios. Luís ficou mais algum tempo e conseguiu salvar o território de Outremer (indiretamente, as invasões mongóis deram o seu contributo).
Oitava Cruzada (1270)
Também foi liderada pelo rei francês Luís IX. Ele atacou Túnis, mas acabou morrendo devido a uma forte disenteria.
O Fracasso das Cruzadas
Deste modo terminavam as cruzadas no oriente. Alguns grupos ainda partiram para, mas nunca mais se gerou entusiasmo nem foram preparadas grandes expedições. Rapidamente os poucos territórios que restavam seriam reconquistados pelos muçulmanos. Diversas razões contribuiram para o fracasso das cruzadas, entre elas: os europeus eram minoria, em meio a uma população geralmente hostil; a opressão à população nativa fez com que o domínio fosse cada vez mais difícil; as diversas lutas entre os próprios cristãos contribuiram para enfraquecê-los enormemente.
O Mundo Muçulmano
Nas cruzadas a febre da conquista islâmica dos sécs. VIII e IX estava a esbater-se. Durante esta altura o Islão espalhava-se pelo Médio Oriente, Pérsia, África do Norte e Península Ibérica. As províncias deste vasto império eram governadas por sultões, de acordo com a autoridade do Califa, o descendente de Maomé e a figura política central do mundo muçulmano. Um dos mais conhecidos califas desta era foi Harun Al-Rashid, imortalizado nos fantásticos contos de As Mil e Uma Noites.
No entanto, nos final do séc. XI o mundo islâmico estava fortemente dividido. Um Califado rival tinha ascendido no Egipto, Fatímida, descendentes de Ali Ibn Talid genro e sobrinho do Profeta, premissa esta utilizada para basear o seu poder, revoltando-se contra a autoridade de Abu Bakr, o primeiro Califa de Bagdad. Os apoiantes dos Fatímidas eram denominados Shi'ah i-Ali (os seguidores de Ali), ou Shi'itas. Os apoiantes do Califado Abassida de Bagdad eram Sunitas, porque, segundo o seu ponto de vista, seguiam a Sunna (o caminho, a via) de Maomé. Estas seitas eram rivais políticos, não religiosos, e os membros das duas facções políticas eram muçulmanos, observando o Corão, a Sharia e os Pilares do Islão.
Enquanto o Califa Fatímida conservava a sua soberania, o Califado de Bagdad era essencialmente um fantoche dos Turcos, na medida em que a tribo Seljúcida tinha rumado desde a Ásia Central até terem conquistado grande parte da Pérsia e capturado Bagdad em 1055. Em 1071 derrotaram o exército Bizantino, do qual resultou o diálogo entre o Imperador Bizantino e o Papa que apelou à Primeira Cruzada. Os Seljúcidas converteram-se ao Islão e mantiveram o Califa em Bagdad, mas o sultão turco detinha as rédeas do poder de decisão a nível político e militar no mundo sunita, mantendo aquele os símbolos da sua posição e prestígio, os palácios, o respeito e o harim (harém). A majestosa cidade de Bagdad foi lentamente caindo na ruína, enquanto hordas de soldados turcos, normalmente alcoolizados, vagueavam pela cidade à noite, contribuindo ainda mais para o caos urbano. Durante as Cruzadas, o Califado de Bagdad era o símbolo vivo da decadência no mundo árabe e das suas irrecuperáveis glórias passadas.
Os príncipes turcos eram geralmente cruéis e não olhavam a meios para exterminarem possíveis rivais quando atingiam o poder, para que estes não o depusessem mais tarde. Normalmente isso incluía o harém do falecido pai, os seus meios-irmãos e, às vezes, alguns familiares mais próximos. Devido à brutalidade das guerras de sucessão, os turcos criaram a figura do atabeg para proteger o jovem herdeiro até que este atingisse a maioridade e pudesse lutar por ele próprio. Ás vezes um atabeg recusava-se a devolver o poder e, nesse caso, o antigo servo ou escravo acabaria por fundar a sua própria dinastia.
Embora o Sultão de Bagdad teoricamente controlasse todos os senhores turcos no seu império, na realidade as províncias eram praticamente independentes de qualquer autoridade central. Em cada província os príncipes turcos lutavam entre si pelo poder dinástico. Barkiyaruq, o sultão turco de Bagdad não era excepção: quando Al-Harawi chegou a Bagdad em 1099 protestando pela perda de Jerusalém, o sultão estava ocupado numa batalha no norte da cidade, lutando contra o seu próprio irmão, Maomé. Durante este conflito, que os árabes observavam com algum divertimento, Bagdad mudou de mãos entre os dois beligerantes oito vezes em menos de três anos.
A situação no Egipto não era melhor. A administração corrupta dos conselheiros, os vizires, levou à má gestão do governo sob a autoridade teorética do Califa Fatímida. Todos os anos os vizires egípcios enviavam exércitos para reconquistar Jerusalém. Estas campanhas eram caracterizadas por falta de planeamento. Embora os recursos do Egipto fossem constantes e às vezes derrotassem os Firanj (os francos, os europeus) em batalha, os ineptos vizires fatímidas nunca reconquistaram Jerusalém.
Durante a Primeira Cruzada, as maiores potências políticas do mundo islâmico eram impotentes face aos cruzados. Pela Síria, Pérsia e Anatólia, os príncipes turcos lutavam constantemente contra os seus parentes. Em Bagdad os Turcos forçaram o califa Abássida a retirar-se para os prazeres perfumados do seu harém. Os vizires egípcios apoderavam-se da administração e operações militares do califado Fatímida. Em resumo, o mundo islâmico estava fragmentado, caótico, à mercê da conquista pelos firanj.
A Jihad
No início do séc. XII, o mundo muçulmano tinha praticamente esquecido a Jihad, a guerra religiosa travada contra os inimigos do Islão. A explosiva expansão da sua religião durante o séc. VIII tinha-se reduzido às memórias de grandeza dessa época. Após a queda de Jerusalém, muitos proeminentes líderes religiosos, como o qadi Abu Sa’ ad al-Harawi, tentaram convencer o Califa Abássida a preparar a Jihad contra os Firanji. No entanto, somente perto de duas décadas depois é que o sultão turco designou um proeminente militar, um atabeg chamado Zengi, para resolver o problema Firanj. Após a primeira cruzada, a moral dos muçulmanos estava de rastos. Os Firanj detinham uma reputação de ferocidade entre os Turcos e os Árabes. Com os espectaculares sucessos em Antioquia e Jerusalém, os Firanj pareciam quase imparáveis. Eles humilhavam o poderoso califado egípcio anualmente e faziam investidas em terras inimigas impunemente. Exceptuando os vassalos do Egipto, a maioria dos aterrorizados líderes muçulmanos dos territórios mais próximos pagavam um pesado tributo para assegurar a paz. Zengi iniciou o longo e lento processo de modificar a imagem que os muçulmanos tinham dos Firanj. Tendo recebido o domínio das terras à volta de Mossul e Alepo, Zengi começou uma campanha contra o Firanj em 1132 com a ajuda do seu lugar-tenente Sawar. Em cinco anos conseguiu reduzir o número dos castelos importantes ao longo da fronteira do Condado de Edessa e derrotou o exército firanj em batalha. Em 1144 capturou a cidade de Edessa e neutralizou de forma efectiva o primeiro domínio estabelecido pelos Cruzados. Zengi foi o primeiro líder muçulmano a enfrentar os firanj e que não só sobreviveu, como triunfou. Ele provou que os firanj podiam ser bloqueados. Os líderes de Bagdad aprovaram os sucessos de Zengi, e cedo um grande número de títulos precediam o seu nome: O Emir, o General, o Grande, o Justo, o Ajudante de Deus, o Triunfante, o Único, o Pilar da Religião, a Pedra de Base do Islão, …Honra de Reis, Apoiante de Sultões … o Sol dos Merecedores, … Protector do Príncipe dos Fiéis. Zengi gostou tanto da enchente de elogios, que insistiu que os seus arautos e escrivães utilizassem todos os títulos na sua correspondência. Embora Zengi fosse um grande herói militar, ele foi simplesmente muito implacável e cruel nas suas campanhas contra Damasco para motivar os muçulmanos para uma guerra religiosa. Uma noite do ano 1146, encontrando-se ele alcoolizado, ao ter presenciado a um erro do seu eunuco particular, Lulu (“pérola”), e prometeu mandá-lo executar por incompetência. Mais tarde, enquanto Zengi dormia, Lulu pegou na adaga do seu dono e apunhalou-o repetidamente e fugiu, coberto pela escuridão da noite. O herdeiro de Zengi, Nur al-Din, e o seu sucessor Salah al-Din (“Saladino”), eram extremamente piedosos, observando rigidamente a Sunna e os Pilares do Islão na sua vida pública e particular. Ambos rodearam-se de religiosos e teólogos e sábios em geral. Para além disso fizeram uma activa campanha para espalhar o fervor religioso e propaganda entre os seus súbditos muçulmanos. Com os seus exemplos de religiosidade, Nur al-Din iniciou – e o seu sucessor Salah al-Din cultivou – uma guerra religiosa, uma jihad, contra os Firanj. Enquanto que Zengi apenas podia contar com os seus soldados, o apelo à jihad atraiu os soldados muçulmanos de toda a Arábia, Egipto e Pérsia. Este massivo exército permitiu Salah al-Din esmagar os Firanj na Batalha de Hattin e enfraquecer as forças da Terceira Cruzada de Ricardo Coração de Leão. A chama da Jihad de Salah al-Din deixou de arder em 1193, quando morreu. O irmão do Sultão, Saphadin, não pretendia entrar em mais guerras, e quando Coração de Leão foi para a Europa, o poderio militar dos Firanj estava praticamente neutralizado e não mais necessidade de derramamento de sangue. A partir desta altura Saphadim acreditava que a coexistência pacífica com Firanj ainda era possível. Várias décadas mais tarde, uma jihad iria finalmente purgar os Firanj da Síria e Palestina, embora até 1291, os muçulmanos ainda partilhassem uma pequena parte desse território com os Firanj.
As Cruzadas na conquista de Portugal
Quando surgiu o reino de Portugal, a cristandade agitava-se no fervor das Cruzadas do Oriente. Os portos de Galiza, que davam acesso a Santiago de Compostela, a barra do Douro e a vasta baía de Lisboa, eram pontos de escala das frotas de cruzados que do Norte da Europa seguiam para a Terra Santa. Quando em 1140 Afonso I tentou a conquista de Lisboa, fê-lo com o auxílio de estrangeiros: setenta navios franceses que tinham entrado a barra do Douro e aportado a Gaia. Mas a conquista não foi possível devido às poderosas defesas que rodeavam Lisboa. Em 1147 entra na barra do Douro, vinda de Dartmouth, uma frota de 200 velas, transportando cruzados de várias nações: alemães, flamengos, normandos e ingleses num total de 13 000 homens. Aproveitando este facto, D. Afonso Henriques escreveu ao bispo do Porto D. Pedro, pedindo-lhe que persuadisse os cruzados a ajudarem-no na empresa, prometendo-lhes o saque da cidade. No dia seguinte desembarcaram os cruzados em Lisboa, que tiveram as últimas negociações com D. Afonso, firmando o pacto. Depois da tomada da cidade muitos cruzados ficaram por cá. Um capitão de cruzados, Jourdan, foi senhor e parece que o primeiro povoador da Lourinhã. Ao francês Allardo foi doada Vila Verde.
Alguns anos depois, em 1152, partiu de Bergen uma esquadra de peregrinos do Norte da Europa, comandados por Rognvaldo III, rei das Orcades, com 15 navios e 2 000 homens. No inverno do ano seguinte esta esquadra estava nas costas de Galiza onde pilhou algumas povoações. No verão de 1154 desce a costa portuguesa e ajuda o monarca na conquista de Alcácer do Sal. A empresa era rendosa, pois a cidade era o mais importante porto do Sado, cercada de pinhais, cujas madeiras eram utilizadas na construção de navios. A empresa falhou e o mesmo se deu anos mais tarde desta vez com a ajuda da frota do conde da Flandres composta de franceses e flamengos, e partiu para a Síria em 1157, aportando à barra do Tejo.
Em 1189 D. Sancho I entra em negociações com outra esquadra, que acabou por entrar na baía de Lagos e ocuparam o Castelo de Albur (Alvor), um dos mais fortes da região. Meses depois entra no Tejo outra frota alemã que tocara em Dartmouth recebendo muitos peregrinos e que ajudou a conquistar Silves. Capital de província, populosa, grande centro de comércio e de cultura, a cidade estava bem fortificada. A notícia destas vitórias chegou ao Norte de África e a resposta não se fez esperar. Os mouros põem cerco a Silves, que não conseguiram tomar, partindo o califa em direcção a Santarém, tomando Torres Novas no caminho e pondo o cerco a Tomar. Perante esta situação, D. Sancho I pediu auxílio aos cruzados vassalos de Ricardo Coração de Leão, que se tinham reunido no Tejo, e foram ter a Santarém, que não chegou a ser atacada por causa da peste que vitimou a maior parte dos mouros.
No ano seguinte, os mouros regressam reconquistando Silves, a província de Alcácer, com excepção de Évora. Anos depois outra armada de cruzados, mesmo sem terem chegado a acordo com D. Sancho I, tomam Silves e saqueiam a cidade, prosseguindo para a Síria. Em 1212 com a derrota de Navas de Tolosa, o reino mouro entra em decadência. Em 1217 entra nova frota alemã, e D. Soeiro, bispo de Lisboa, convenceu-os a conquistar Alcácer do Sal, navegando a esquadra por Setúbal, com os seus 100 navios. Alcácer resistiu durante dois meses até capitular. No princípio do Inverno regressa a frota ao Tejo, passando aí o resto do inverno.
