Dogville
Keywords: Dogville, 2003, Altruísmo, As Horas, Bertolt Brecht, Dinamarca, Dogma 95, Drama, Estados Unidos
Dogville é um filme lançado em 2003 e dirigido por Lars von Trier, estrelando Nicole Kidman (Oscar de melhor atriz) e Paul Bettany.
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Aspectos Gerais
O filme chama a atenção pela simplicidade de seus cenários e corte de cenas não convencional. Todo o filme foi filmado dentro de um galpão localizado na Dinamarca com o mínimo de artefatos, há poucas mesas e algumas paredes, mas normalmente há apenas marcações no chão indicando que ali é a casa de tal pessoa, ou há um arbusto. Apesar dos personagens fazerem constantes referências a paisagem, ou ao céu, o fundo é infinito, tendo constantes alterações de luz e cor que indicam mudanças de dia/noite, clima e de momentos importantes do filme. O filme ainda tem um narrador onisciente e é o próprio Lars von Trier quem controla a câmera.
Tudo isso são artimanhas do diretor para que o público não se esqueça de que assistem a uma peça de ficção, valorizando o trabalho dos atores. O resultado é aberto a opiniões: alguns espectadores saem maravilhados com a sensibilidade com que Lars retrata a arrogância humana e a atuação brilhante (Nicole Kidman, vencedora do Oscar por As Horas) outros acham o filme longo e maçante (o filme tem cerca de 2 horas e meia de duração).
Influências e referências
Dogville é recheado de referências e influências óbvias a começar pelo movimento Dogma 95, iniciado pelo próprio diretor, do qual o filme herda uma câmera tremida (algumas cenas entretanto usam gruas, contra as regras do dogma) uma iluminação não convencional (mas artificial, novamente uma proibição do movimento) e o cenário mínimo (mas em estúdio). Outra referência é ao teatro de Bertolt Brecht, que comumente colocava avisos de 'atenção, não se emocione isso é ficção' em suas peças, ao teatro da caixa preta, realizado em um cenário com as paredes todas pretas, e finalmente ao teatro Improv (de improviso), onde os atores criam objetos imaginários do nada e os outros tratam de contorná-los, consistência a estes.
Outra referência forte é à escolas de filosofia, especialmente os gregos. Por duas vezes cita-se os ensinamentos estoicistas, uma escola que pregava o abandono da emoção para vivermos sem dor. E muito da moral história gira em torno da diferença entre o altruísmo - dar sem esperar nada - e o quid pro quod - exigir uma compensação equivalente para cada ação.
Roteiro
O filme é dividido em 5 partes, cada uma com créditos e uma introdução narrada. Se passa em uma cidade pequena dos Estados Unidos na época da grande depressão, situada no fim de uma estrada que vai até as Montanhas Rochosas.
O filme começa com uma tomada de cima pra baixo, onde pode-se ver o desenho da cidade (com as legendas desenhadas no chão). Essas tomadas perpendiculares repetir-se-ão em diversas cenas, sendo marcos importantes. O narrador vai então apresentando os personagens ("todos têm pequenos defeitos facilmente perdoáveis") e explicando suas histórias.
O personagem principal é Thomas Edson Jr., um escritor que para protelar o dia em que terá que começar a escrever um livro se ocupa em sermões à toda comunidade sobre rearmamento moral. Ele está procurando uma ilustração para comprovar que os moradores não são capazes de aceitar novas situações quando é interrompido por barulhos de tiros a distância.
Nesse momento que entra Grace (Nicole Kidman) com um vestido que a acusa como vinda de família rica. Ela diz a Tom que está fugindo de gângster e ele, vendo nela o exemplo perfeito para sua palestra, lhe dá cobertura.
Os moradores a princípio recusam-se a aceitá-la, e Tom propõe que dêem a Grace um prazo de duas semanas, para então decidirem sua sorte. Grace, em compensação, deve ajudá-los em tarefas cotidianas. Apesar de não admitirem, eles jamais dão coisa alguma, não há generosidade ou aceitação: há trocas e é esse sistema de compensações (o quid pro quó) aliada à personalidade de tudo perdoar de Grace (o altruísmo) que anuncia a tragédia.
Ate em aceitar ajuda eles relutam, mas aceitam e logo Grace passa os dias ocupada em fazer pequenas coisas que "são desnecessárias mas deixo que você faça". E assim passam-se as semanas, e os moradores aceitam-na, como mais um favor que ela ficará devendo.
Tudo começa a mudar no Dia da Independência. Tom assume a Grace que gosta dela, mas também não a assume perante Dogville, mantendo-a na condição de estrangeira. A situação se agrava quando chega a polícia e afixa um cartaz a sua procura.
Agora, os moradores de Dogville consideram ainda maior sua dívida com eles, fazendo dela cada vez mais exigências, que diante da sua permissividade tornam-se abusos. Uma cena forte se dá quando Chuck a estupra, como uma condição que ele não a denunciasse. Aqui a alegoria do cenário é clara: a ausência de paredes dá a nítida percepção de que todos enxergam o que se passa, só fingem não ver.
Comunicação também não parece ser possível para os moradores de Dogville. O que eles falam passa longe de significar o que querem dizer. Quando questionados são evasivos, desviam o assunto ou simplesmente parecem responder a outra pergunta. Chuck fala de colheita de maçãs quando está querendo abusar sexualmente de Grace, e Ma Ginger reprime-a quando ela passa entre os arbustos, dizendo argumentos que simplesmente não respondem àquilo que ela diz.
Desse ponto a constante dívida de Grace com a comunidade só cresce e ela torna-se uma escrava não só de trabalho físico como sexual. Em pouco tempo a tratam como uma vaca que puxa um arado, onde os caipiras se aliviam. Somente Tom, sem capacidade de tomar qualquer posição, não a viola. E é após ela o rejeitar, que ele decide dar um basta nessa pequena metáfora ilustrativa que ela representa, chamando o gângster que a procurava.
Nesse momento revela-se que Grace não está sendo ameaçada por eles, mas é a filha do chefe maior. Não há surpresa no final: desde que Grace entra no carro o diretor vai preparando a platéia com a idéia de que haverá um massacre. E sem dúvida, não fosse este final apoteótico, o filme findaria morno, indigesto, como se todos estivessem com algo na garganta. Grace não lavou apenas o mundo de uma cidade: lavou a alma de todos que assistiram ao filme.
Interpretações
Desde sempre, quase toda obra de arte é, em última instância, um retrato do ser humano. Lars von Trier não parece perdoar alma alguma, e faz um retrato de pessoas cruéis, mesquinhas, egoístas ou no mínimo arrogante.
Nesse ponto de vista, Tom é um covarde, incapaz de assumir responsabilidade alguma (o drama de Grace começa no dia da Independência, quando ele não a assume). Os habitantes da vila são cães guiados pelas condições do ambiente, que a não ser que ensinados com repressão e violência irão sempre abusar mais.
E sequer a protagonista é perdoada. Se ao longo do filme somos levados a vê-la como de uma generosidade infinita, o capítulo final mostra que não: se ela perdoou e permitiu que fizessem dela o que foi feito é porque se considerava acima deles todos, indiferente. Grace jamais foi cativa ou submissa, não tinha misericórdia, mas desprezo. A todo momento temos a impressão de que, se quisesse, poderia simplesmente ir embora, e que portanto os verdadeiros prisioneiros são os moradores - e ela sabe disto.
Na cena final há mais um elemento por trás de Grace: a platéia. Se esta última passou o filme sofrendo com a passividade diante das brutalidades, agora se regozija, conscientemente ou não, concordando (e gostando) do massacre a que assiste. Essa é a forma do diretor dizer ao público: vêem? Pois vocês fariam o mesmo, não estão perdoados.
Dogville é a antítese do bom selvagem. Sequer os bebês são sem pecado, apenas talvez o cão, que esse nada fez contra sua natureza de animal.
Nos Estados Unidos muitos espectadores sentiram-se ofendidos, acusando Lars de anti-americano. O fato de ele jamais ter visitado os Estados Unidos e de imagens de sem-teto americanos, ao som de Young Americans surgirem no crédito não depõem ao seu favor. Mas Dogville poderia se passar em qualquer lugar, qualquer época.
Ficha Técnica
- Título Original: Dogville
- Gênero: Drama
- Tempo de Duração: 177 minutos
- Ano de Lançamento (França): 2003
- Site Oficial: http://www.dogville.dk
- Estúdio: Canal+ / 4 1/2 / Alan Young Pictures / Det Danske Filminstitut / Edith Film Oy / Film i Väst / Hachette Première / Isabella Films B.V. / J&M Entertainment / KC Medien AG / Kushner-Locke Company / Kuzui Enterprises / Liberator Productions / MDP Worldwide / Memfis Film & Television / Pain Unlimited GmbH Filmproduktion / Q&Q Medien GmbH / Sigma Films Ltd. / Slot Machine / Something Else B.V. / Summit Entertainment / Sveriges Television / Trust Film Svenska / Zoma Ltd. / Zentropa Entertainment / What Else? B.V.
- Distribuição: Lions Gate Entertainment / California Filmes
- Direção: Lars Von Trier
- Roteiro: Lars Von Trier
- Produção: Vibeke Windelov
- Fotografia: Anthony Dod Mantle
- Desenho de Produção: Peter Grant
- Figurino: Manon Rasmussen
- Edição: Molly Marlene Stensgard
Elenco
- Nicole Kidman (Grace)
- Harriet Andersson (Gloria)
- Lauren Bacall (Ma Ginger)
- Jean-Marc Barr (Homem com grande chapéu)
- Paul Bettany (Tom Edison)
- Blair Brown (Sra. Henson)
- James Caan (Homem grande)
- Patricia Clarkson (Vera)
- Jeremy Davies (Bill Henson)
- Ben Gazzara (Jack McKay)
- Philip Baker Hall (Tom Edison Sr.)
- Siobhan Fallon (Martha)
- John Hurt (Narrador - voz)
- Udo Kier (Homem de casaco)
- Chloë Sevigny (Liz Henson)
- Stellan Skarsgard (Chuck)
- Miles Purinton (Jason)
categoria:Filmes da França
