Grécia Antiga

Keywords: Grécia Antiga, 776 a.C., Acrópole, Alexandre Magno, América, Arquitectura, Arte, Chipre

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thumb|300px|right|Acrópole. Uma colina fortificada no centro da cidade. Na Grécia Antiga a área urbana frequentemente se estabelecia em torno dela.

Épocas da História

Pré-história
Antiguidade
Medieval
Moderna
Contemporânea

Grécia Antiga é o termo geralmente usado para descrever, em seu período clássico antigo, o mundo grego e áreas próximas (como Chipre, Turquia, Sicília, sul da Itália e costa do Mar Egeu, além de assentamentos gregos no litoral de outros países).

Não existe uma data fixa ou sequer acordo quanto ao período em que iniciou-se e terminou a Grécia Antiga. O uso comum situa toda história grega anterior ao Império Romano como pertencente a esse período, mas os historiadores usam a expressão Grécia Antiga de modo mais preciso. Alguns escritores incluem o período minóico e o período micênico (entre 1600 a.C. e 1100 a.C.) dentro da Grécia Antiga, enquanto que outros argumentam que essas civilizações eram tão diferentes das culturas gregas posteriores que, mesmo falando grego, devem ser classificadas à parte.

Tradicionalmente, período da Grécia Antiga abrange desde o ano dos primeiros Jogos Olímpicos em 776 a.C. (alguns historiadores extendem o começo para o ano de 1000 a.C.) até a morte de Alexandre Magno em 323 d.C. O período seguinte naquela região da Europa é o do Helenismo.

Estas datas são convenções dos historiadores e alguns autores chegam mesmo a considerar a Grécia Antiga presente até o advento do Cristianismo, no terceiro século da era cristã.

A Grécia Antiga é considerada pela maioria dos estudiosos como a base da cultura da dita Civilização Ocidental, apesar de que esta concepção sofre diversas críticas de algumas décadas para hoje. A cultura grega exerceu poderosa influência sobre o império romano, que se encarregou de repassá-la a diversas partes da Europa. A civilização grega antiga teve influência imensa na linguagem, na política, no sistema educacional, na filosofia, na arte, e na arquitetura do mundo moderno, particularmente durante a renascença da Europa ocidental e durante os diversos reviveres neoclássicos dos séculos XVIII e XIX, na Europa e Américas.

left|O Partenon de Atenas

Conceitos como cidadania e democracia são de origem grega, ou pelo menos de pleno desenvolvimento na mão dos gregos.

Um dos mais expressivos monumentos do período antigo é o Pártenon, templo com colunas dóricas, construído no século V a.C., entre os anos 447 e 438 A.C., no ponto mais alto da cidade, a Acrópole, e dedicado à deusa protetora da cidade, Athenea Párthenos. A construção foi projetada pelos arquitetos Calícrates e Ictinos de Mileto. Suas linhas arquitetônicas serviram de inspiração para a construção de muitos outros edifícios em todo o mundo.

Qualquer história da Grécia antiga requer cautela na consulta à fontes. Os historiadores e escritores políticos cujos trabalhos sobreviveram ao tempo eram, em sua maioria, atenienses ou pró-atenienses, e todos conservadores. Por isso se conhece melhor a história do estabelecimento e desenvolvimento de Atenas do que a história das outras cidades; além disso, esses homens concentraram seus trabalhos mais em aspectos políticos (e militares e diplomáticos, desdobramentos daqueles), ignorando o que veio a se conhecer modernamente por história econômica e social. Toda a história da Grécia antiga precisa dar estar atenta à condução parcial pelas fontes.

Conteúdo

Origens

Os gregos clássicos provavelmente se originaram de povos que migraram para a península balcânica em diversas ondas, com início no terceiro milênio a.C. Entre os povos invasores, merecem destaque os aqueus - os pioneiros - , os jônicos, os eólios, todos povos indo-arianos provenientes da Europa Oriental. As populações invasoras são em geral conhecidas como "helênicas", pois sua organização clânica fundamentava-se, no que concerne à mística, na crença de que descendiam do deus Heleno, filho de Deucalião e Pirro.

A última das invasões foi do povo dório, já em fins do segundo milênio a.C. O período entre 1600 e 1100 é geralmente descrito como Grécia Micênica; os dórios foram responsáveis pela destruição dessa civilização, que tinha por principais cidades Micenas, Tirinto, Tebas, Esparta, estabelecida pelo povo aqueu. Os dórios eram guerreiros nômades e conhecedores da metalurgia do ferro, o que lhes permitiu dominar facilmente os aqueus. Esses, por sua vez, tinham dominado o sul da península graças ao conhecimento do fabrico do bronze. No entanto, devido a sua cultura rudimentar, a Grécia mergulhou em um período de semi-civilização conhecido como "Idade das Trevas", até o oitavo século a.C. Aquele período também é agrupado sob "Tempos Homéricos", uma vez que a única fonte de informação sobre ele é derivada dos poemas do famoso poeta. Com a invasão dória os povos que então viviam no território grego iniciaram um processo de êxodo da região, conhecido como Primeira Diáspora Grega.

A origem das cidades gregas remonta à própria organização dos invasores, especialmente dos aqueus, que se agrupavam nos chamados ghené (ghenos, no singular). Os ghené eram essencialmente comunidades tribais, que cultuavam seus deuses na acrópole (local elevado). A vida econômica dessas grandes famílias ou ghené era, a princípio, baseada em laços de parentesco e cooperação social. A terra, a colheita e o rebanho pertenciam à comunidade. Havia uma liderança política na figura do pater, um membro mais velho e respeitado.

Diversos ghené agruparavam-se em fratarias, e diversas fratarias em tribos.

Alguns supõem que, ao longo do tempo, o crescimento da população nessas comunidades tenha sido superior ao crescimento da produção alimentar. Diante desse desequilíbrio e procurando garantir melhores condições de vida, alguns grupos teriam se destacado, passando a manejar armas e a ter domínio sobre as melhores terras e rebanhos. Esses grupos acumularam riqueza, poder e propriedade como resultado da divisão desigual das terras do ghené, considerando-se os melhores -- aristoi, em grego. Assim, foram diferenciando-se da maioria da população e dissolvendo a vida comunitária do ghené. Essas transformações sociais estavam na origem da formação da pólis, a cidade grega.

A Hélade

No oitavo século a.C a Grécia começou a emergir da Idade das Trevas que se seguiu à queda da civilização micênica. Inicia-se, assim, o chamado Período Arcaico. A escrita micênica havia sido perdida, bem como a cultura escrita deixara de ter sentido; entretanto, os gregos adaptaram o alfabeto fenício para seu idioma e a partir de cerca de 800 a.C os registros escritos reapareceram. A Grécia era ainda dividida em pequenas províncias com autonomia, em razão das condições topográficas da região: cada planície, vale ou ilha é isolada de outra por cadeias de montanhas ou pelo oceano.

Com a recuperação econômica após o interlúdio dório, a população grega cresceu além da capacidade de produção das terras agriculturáveis, e a partir de 750 a.C. os gregos iniciaram um longo processo de expansão, firmando colônias em várias regiões. Ao leste, a costa Egéia da Ásia Menor foi colonizada, seguindo-se Chipre e as costas da Trácia, o Mar de Mármara, e a costa sul do Mar Negro. Eventualmente, a colonização grega atingiu a Ucrânia. A oeste chegou até à Albânia, Sicília e sul da Itália, seguindo a colonização depois para a costa meridional da França, a Córsega, e a Espanha, a nordeste. Também apareceram colônias gregas no Egito e na Líbia.

Como efeitos da colonização, podem ser citados o desenvolvimento de uma classe rica formada por mercadores (o comércio internacional desenvolvera-se a partir de então) e armadores. A indústria naval se desenvolveu, obviamente, passando a consumir crescente quantidade de madeiras das florestas gregas. Houve concentração fundiária, gerando crise social: em algumas cidades essa crise levou a revoltas e tiranias, em outras a aristocracia manteve o controle graças a legisladores inclementes.

A partir do século IV a.C., a Hélade começa a dominar lingüística e culturalmente área maior do que o próprio limite geográfico da Grécia. As colônias não eram controladas politicamente pelas cidades que as fundavam, apesar de manterem vínculos religiosos e comerciais com aquelas. Predominava entre os gregos sempre a organização de comunidades independentes, e a cidade (pólis) tornou-se a unidade básica do governo grego.

Com o avanço da colonização esgotando os territórios disponíveis, houve a adoção, primeiro em Creta e depois em outras cidades-estado da Grécia, da prática da pederastia, num esforço para resolver definitivamente o problema da superpopulação. A partir de suas origens ritualísticas na pré-história dos povos indo-europeus, a pederastia foi ganhando importância e tornou-se parte importante da cultura helênica, influenciando a pedagogia, guerra e vida social.

Sociedade e organização política

Os historiadores que observam o território grego atual sabem que, em certa medida, essa região foi palco de muitos acontecimentos da antiga civilização grega. Porém são inúmeras as diferenças entre a Grécia de hoje e a Grécia antiga.

O mundo grego antigo estendia-se por uma área maior do que o território grego atual. Além disso, há outra diferença básica. Hoje, a Grécia constitui um país, cujo nome oficial é República Helênica. Já a Grécia antiga nunca foi um estado unificado com governo único. Era um conjunto de cidades independentes, que tinham governo, leis e características sociais próprias.

Os gregos se autodenominavam helenos. Nunca chamaram a si mesmos de gregos, pois esta palavra é de origem latina, sendo-lhes atribuída pelos romanos.

Cronologia

Por razões didáticas, a história grega costuma ser dividida nos seguintes períodos:

Pólis: a cidade-estado grega

Desde o século VIII a.C., formaram-se pela Grécia antiga diversas cidades independentes. Em razão disso, cada uma delas desenvolveu seu próprio sistema de governo, suas leis, seu calendário, suas moedas. Essas cidades eram chamadas de pólis, palavra grega que costuma ser traduzida por "cidade-estado".

De modo geral, a pólis reunia um agrupamento humano que habitava um território cuja extensão variava entre 1000 e 3000 km². Compreendia uma área urbana e outra rural.

A área urbana freqüentemente se estabelecia em torno de uma colina fortificada denominada acrópole (do grego, akrós = alta; pólis = cidade). Nessa área concentrava-se o centro comercial e artesanal. Ali, muitos artesãos produziam tecidos, roupas, sandálias, armas, artigos em cerâmica e vidro etc. Na área rural a população dedicava-se às atividades agropastoris: cultivo de oliveiras, videiras, trigo, cevada e criação de rebanhos de cabras, ovelhas, porcos e cavalos.

No mundo grego encontramos diversas pólis, como, por exemplo, Messênia, Tebas, Mégara e Erétria. As que mais se destacaram foram Atenas e Esparta, pela liderança que, em certas épocas, exerceram sobre as demais cidades. As principais características de Atenas e Esparta serão mencionadas mais adiante.

Colonização grega

Do século VIII até o século VI a.C, inúmeros gregos deixaram suas cidades e partiram para diversas regiões do litoral do Mediterrâneo e do mar Negro, onde fundaram novas cidades, as colônias, as quais chamavam de apoíkias, palavra que pode ser traduzida por "abrir uma nova casa".

São muitas as causas apontadas pelos historiadores para explicar essa expansão colonizadora grega. Grande parte dessas causas relaciona-se a questões sociais originadas por problemas de posse de terra e dificuldades na agricultura.

As melhores terras eram dominadas por famílias ricas (os aristoi). A maioria dos camponeses cultivava solos pobres cuja produção de alimentos era insuficiente para atender às necessidades de uma população em crescimento. Para fugir à miséria, muitos gregos migravam em busca de terras para plantar e de melhores condições de vida, fundando novas cidades.

Assim, no primeiro momento, a principal atividade econômica das colônias gregas foi a agricultura. Posteriormente, muitas colônias transformaram-se em centros comerciais, dispondo de portos estratégicos para as rotas de navegação.

A colonização grega favoreceu o desenvolvimento da navegação marítima, impulsionou o comércio e a produção artesanal, contribuiu para o intercâmbio cultural dos gregos com outros povos.

Os gregos tinham conflitos e diferenças entre si, mas, por outro lado, muitos elementos culturais comuns os integravam. Falavam a mesma língua (apesar dos diferentes dialetos) e tinham base religiosa comum, que se manifestava na crença nos mesmos deuses. Em função disso, reconheciam-se como helenos (gregos) e chamavam de bárbaros os estrangeiros que não falavam sua língua e não tinham seus costumes, ou seja, os povos que não pertenciam ao mundo grego (Hélade).

Jogos Olímpicos

Um exemplo de atividade cultural comum entre os gregos foram os Jogos Olímpicos.

A partir de 776 a.C., de quatro em quatro anos, os gregos das mais diversas cidades reuniam-se em Olímpia para a realização de um festival de competições. Esse festival ficou conhecido como Jogos Olímpicos ou Olimpíadas.

Os jogos olímpicos eram realizados em honra a Zeus (o mais importante deus grego) e incluíam provas de diversas modalidades esportivas: corridas, saltos, arremesso de disco, lutas corporais. Além do esporte havia também competições musicais e poéticas.

Os Jogos Olímpicos eram anunciados por todo o mundo grego dez meses antes de sua realização. Os gregos atribuíam tamanha importância a essas competições, que chegavam a interromper guerras entre cidades (trégua sagrada) para não prejudicar a realização dos jogos. Pessoas dos lugares mais distantes viajavam para Olímpia a fim de assistir aos jogos. Havia, entretanto, proibição à participação das mulheres, seja como esportistas, seja como espectadoras. Conta-se o caso de uma mulher que, vestida com roupas masculinas, disfarçou-se de treinador para entrar no ginásio e ver seu filho lutar. O filho venceu a prova e a mãe, comemorando a vitória, deixou cair seu disfarce. Descobriram que era mulher. Apesar disso, foi perdoada em consideração a seu pai, irmãos e filho, que eram campeões olímpicos.

Os atletas que participavam das competições eram respeitados pelos gregos em geral. O prêmio para os vencedores era uma coroa, feita com ramos de oliveira. Receber esse prêmio era uma glória para o atleta. As cidades recepcionavam os vitoriosos com festas e homenagens.

Os Jogos Olímpicos da Antigüidade foram celebrados até o ano de 393 d.C., quando o imperador romano Teodósio I, que era cristão, mandou fechar o templo de Zeus, em Olímpia, provavelmente para combater cultos não-cristãos.

Quinze séculos depois, um amante do esporte, o educador francês Pierre de Fredy, o barão de Coubertin (1836-1937), empreendeu esforços para restaurar os Jogos Olímpicos. Sua "causa" obteve simpatia e adesão internacionais. Em 1896, foram realizados em Atenas os primeiros Jogos Olímpicos da época contemporânea.

As atuais Olimpíadas, também realizadas de quatro em quatro anos, reunindo atletas de diversos países do mundo, procuram preservar o ideal de unir os povos por meio do esporte.

Atenas: O Caminho da democracia

Atenas situa-se na parte central da península da Ática, a cinco quilômetros do mar Egeu. Assim como em outras cidades, o centro ficava numa colina chamada acrópole, o lugar mais protegido contra possíveis ataques de inimigos.

Ao longo de sua história, os cidadãos de Atenas transformaram a maneira de organizar o governo da cidade. Até meados do século VIII a.C., Atenas foi governada por um rei que acumulava funções de juiz, sacerdote e chefe militar. Posteriormente, o poder do rei foi passando para as mãos de representantes da aristocracia (arcontes), que comandavam o governo da cidade. Apossando-se das melhores terras cultiváveis, essa aristocracia (composta de eupátridas = "bem-nascidos") tornou-se muito rica. Emprestava dinheiro aos pequenos proprietários e, quando estes não pagavam suas dívidas, apoderava-se de seus bens e até mesmo da própria pessoa do devedor, tornando-o escravo.

Diante dos abusos e da concentração de poder da aristocracia, grande parte dos atenienses (comerciantes, artesãos, camponeses) começou a exigir reformas políticas e sociais. Essas reformas fizeram parte de um longo processo de lutas em que a maioria dos grupos sociais não-aristocráticos se uniu para exigir participação política no governo da cidade. O processo culminou com a criação de uma nova maneira de governar Atenas, que foi chamada de democracia.

Um dos principais líderes responsáveis pela implantação da democracia em Atenas foi Clístenes (510-507 a.C.). Ele contribuiu para a implantação de uma série de normas político-sociais que introduziram o regime democrático. Uma importante norma dizia o seguinte: todos os cidadãos têm o mesmo direito perante as leis. Essa igualdade de direitos é o que chamamos isonomia.

No entanto, na democracia ateniense, apenas pequena parte da população masculina adulta constituía o grupo dos cidadãos. Eram eles que podiam participar da Assembléia do Povo (Eclésia), que aprovava ou rejeitava projetos sobre a vida da cidade. O órgão que elaborava os projetos era o Conselho de Quinhentos, formado por quinhentos cidadãos sorteados anualmente. Os projetos aprovados pela Assembléia do Povo deviam ser executados pelos estrategos. Em tempo de guerra, os estrategos eram encarregados do comando dos exércitos e serviços relacionados às ações militares. Em tempo de paz, cabia aos estrategos implantar as decisões tomadas pela Assembléia do Povo.

No século V a.C., os atenienses aperfeiçoaram a vida democrática sob a liderança de Péricles (499-429 a.C.), que durante quinze anos foi sucessivamente reeleito para o cargo de estratego.

O historiador ateniense Tucídides (460-396 a.C.) registrou um eloqüente discurso de Péricles sobre a democracia:

Nossa forma de governo não se baseia nas instituições dos povos vizinhos. Não imitamos os outros. Servimos de modelo para eles.

Somos uma democracia porque a administração pública depende da maioria, e não de poucos. Nessa democracia, todos os cidadãos são iguais perante as leis para resolver os conflitos particulares. Mas, quando se trata de escolher um cidadão para a vida pública, o talento e o mérito reconhecidos em cada um dão acesso aos postos mais honrosos.

Nossa cidade institui muitos divertimentos para o povo. Temos concursos, festas e cerimônias religiosas ao longo de todo o ano. Isso tudo nos traz prazer de viver e afasta de nós a tristeza. Ao contrário de outros povos que impõem aos jovens exercícios penosos, nós educamos a juventude de maneira bem mais liberal e amena. A coragem dos atenienses é fruto da alegria de viver, e não da obrigação de cumprir ordens militares. Não nos perturbamos antecipando desgraças ainda não existentes. Porém, no momento do perigo, demonstramos tanta bravura quanto aqueles que passam a vida treinando e sofrendo.

Usamos a riqueza como um instrumento para agir, e não como motivo de orgulho e ostentação. Entre nós, a pobreza não é causa de vergonha. Vergonhoso é não fazer o possível para evitá-la.

Todo cidadão tem direito de cuidar de sua vida particular e de seus negócios privados. Mas aquele que não manifestar interesse pela política, pela vida pública, é considerado um inútil.

Em resumo, digo que nossa cidade é uma escola para toda a Hélade, e cada cidadão ateniense, por suas características, mostra-se capaz de realizar as mais variadas formas de atividade.

(Adaptado de Tucídides. História da Guerra do Peloponeso, livro II, trechos dos capítulos 37, 38, 39, 40 e 41.)

Há muitas diferenças entre as democracias atuais e a antiga democracia ateniense. Já vimos que, em Atenas, somente parte dos homens adultos constituía o grupo dos cidadãos. Os estrangeiros (metecos), os escravos, as mulheres e os jovens menores de 21 anos não tinham direitos políticos, sendo, assim, excluídos da vida democrática. Além disso, em Atenas, por exemplo, a democracia era direta, ou seja, todo cidadão apresentava-se pessoalmente na Assembléia para votar sobre diferentes assuntos da vida pública. Já a maioria dos sistemas democráticos atuais é representativa, ou seja, o cidadão elege representantes (vereadores, deputados, senadores) que compõem o parlamento (Assembléia, Câmaras).

O historiador Moses Finley aponta outras diferenças entre a democracia ateniense e os sistemas atuais:

Na antiga democracia de Atenas a votação na Assembléia era precedida por um período de intensa discussão, nas lojas, nas tavernas, na praça da cidade, na mesa do jantar (...). Não poderia haver homem algum na reunião da Assembléia naquele dia que não conhecesse pessoalmente e mesmo intimamente considerável número de seus colegas votantes, seus companheiros de assembléia, inclusive alguns dos oradores do debate. Nada poderia ser mais diverso da situação atual, em que o cidadão, individualmente, de vez em quando se engaja, junto com milhões de outros, não apenas com uns poucos milhares de vizinhos no ato impessoal de marcar uma cédula eleitoral ou manipular as alavancas. Além disso, como Tucídides disse explicitamente, muitos estavam votando naquele dia para tomar parte na campanha, no exército ou na marinha. Ouvir um debate político com tal fim em vista concentraria as mentes dos participantes de forma clara e nítida.

(Moses I. Finley. Democracia: antiga e moderna.)

Cidadãos, metecos e escravos

A sociedade ateniense era composta de pessoas agrupadas em três grandes categorias: cidadãos, metecos e escravos.

Os cidadãos tinham direitos políticos e participavam do governo da cidade. Eram homens adultos (maiores de 21 anos), nascidos de pai e de mãe atenienses. Entre os cidadãos, encontravam-se homens de diferentes condições econômicas: grandes e pequenos proprietários de terra, grandes e pequenos comerciantes etc. As mulheres e jovens não faziam parte do grupo dos cidadãos. Raramente os atenienses concediam o direito de cidadania a pessoas de outras cidades.

Os metecos eram estrangeiros que moravam em Atenas. Não tinham direitos políticos e eram proibidos de comprar terras, mas podiam trabalhar no comércio e no artesanato. Em geral, pagavam impostos para viver na cidade e, em certas épocas, podiam ser convocados para o serviço militar.

Por fim, os escravos tinham suas origens sobretudo entre os prisioneiros de guerra. Eles eram comprados de estrangeiros nos mercados de escravos, ou eram filhos de escravos que já viviam nas cidades. Viviam em Atenas milhares de escravos, contudo não se sabe o número exato. Alguns historiadores estimam que, no final do século IV a.C., chegava a aproximadamente 400 mil. Calcula-se que uma família rica chegava a ter 20 escravos para os serviços domésticos. A família que não tivesse pelo menos um escravo demonstrava vida miserável.

Os escravos urbanos eram, geralmente, bem tratados. As leis atenienses os protegiam contra abusos ou brutalidades. Se um escravo, por exemplo, denunciasse o dono por maus-tratos, este poderia ser obrigado a vendê-lo. Além disso, as leis atenienses permitiam que os escravos fossem libertados e ingressassem na categoria de metecos. Entretanto, o liberto continuava obrigado a cumprir alguns deveres em relação a seu antigo dono (chamado, agora, de patrono), por exemplo, pagando a ele a quantia que conseguia reunir mediante seu trabalho.

Os escravos urbanos exerciam diversas atividades nas oficinas de artesanato, nos mercados, nos portos, nas escolas. Misturados à população livre, não usavam roupas que os identificassem. Alguns aristocratas queixavam-se de que era quase impossível distinguir, num primeiro momento, um homem livre de um escravo. Já a vida dos escravos das minas de chumbo ou prata, ao contrário do que acontecia com os escravos urbanos, era marca por sofrimentos. Trabalhavam em túneis subterrâneos estreitos, quentes e mal-iluminados por fumacentas lamparinas. Para evitar fugas, os donos costumavam acorrentá-los uns aos outros durante o trabalho. À noite, esses escravos dormiam em alojamentos com condições precárias.

Escravidão e democracia

Para os antigos cidadãos atenienses, não havia contradição entre a democracia e a existência da escravidão. Na visão desse grupo social, uma instituição dependia da outra. Vejamos, por exemplo, como o filósofo Aristóteles (384-322 a.C.), que viveu em Atenas, justificava a escravidão:

A natureza faz o corpo do homem escravo e do homem livre diferentes. O escravo tem corpo forte, adaptado para a atividade servil. O homem livre tem corpo ereto, inadequado para tais trabalhos, porém apto para a vida do cidadão. (...)

Na cidade bem constituída, (...) os cidadãos não devem viver executando trabalhos braçais (artesãos) ou fazendo negócios (comerciantes). Esses tipos de vida são ignóbeis e incompatíveis com as qualidades morais. Tampouco devem ser agricultores os aspirantes à cidadania. Isso porque o ócio é indispensável ao desenvolvimento das qualidades morais e à prática das atividades políticas.

(Adaptado de Aristóteles. Política.)

A educação do jovem ateniense

Um texto do filósofo grego Platão (427-347 a.C.) descreve a vida escolar de um jovem estudante ateniense, por volta do século IV a.C. O documento menciona três tipos de ensino (leitura, música e ginástica) e os objetivos de cada um.

Nos primeiros estágios da escola, recomenda-se aos mestres que cuidem mais do comportamento da criança do que do ensino da leitura e música. E os professores cumprem essa recomendação.

Quando os alunos começam a ler e compreender a palavra escrita, do mesmo modo que entendiam as lições orais, então entregam a eles as obras dos grandes poetas, para que leiam e decorem. Nessas obras há muitos conselhos e narrações que elogiam os grandes heróis do passado. Deseja-se que a criança aprenda os preceitos ensinados e procure imitar o exemplo dos grandes heróis.

Os mestres de música, utilizando a cítara, têm objetivos semelhantes. Esforçam-se para que seus alunos se tornem moderados e não pratiquem ações vergonhosas. Após ensiná-los a tocar cítara, exigem que estudem as obras de outros grandes poetas líricos, executando-as no instrumento. Assim, fazem as crianças assimilar ritmos e acordes para que se tornem amáveis, rítmicas e harmoniosas e estejam cada vez mais preparadas para a palavra e a ação. Pois toda a vida do homem tem necessidade de ritmo e harmonia.

Depois, os jovens são enviados aos mestres de ginásticas a fim de desenvolver um corpo sadio, que possa servir a um espírito virtuoso, e não sejam, por fraqueza física, covardes na guerra ou em outras ocasiões.

Cuida-se tanto mais da educação das crianças quanto mais rica é a família. Os filhos dos ricos começam a freqüentar a escola mais cedo e a deixam mais tarde

(Platão. Prótagoras. Em: Maurice Debesse e Gaston Mialarete (org.). Tratado das ciências pedagógicas.)

Esparta: O governo oligárquico

Esparta localizava-se na península do Peloponeso, numa região que tinha terras apropriadas para o cultivo da vinha e da oliveira. Nunca teve uma área urbana importante. Era uma cidade de caráter militarista e oligárquico.

O governo de Esparta tinha como um de seus principais objetivos fazer de seus cidadãos modelos de soldados, bem treinados fisicamente, corajosos e obedientes às leis e às autoridades.

A sociedade espartana dividia-se em três categorias principais: esparciatas, periecos e hilotas.

Os esparciatas eram os cidadãos espartanos, que permaneciam à disposição do exércitoou dos negócios públicos, podendo participar do governo da cidade. Eram os proprietários da terra e não podiam exercer o comércio. Deviam dedicar sua vida ao estado espartano.

Os periecos, assim o os esparciatas, eram homens livres, mas dedicavam-se principalmente ao comércio e ao artesanato. Descendiam dos povos conquistados pelos esparciatas e não tinham direitos politicos nem participavam dos órgãos do governo. Pagavam impostos ao Estado.

Os hilotas viviam presos à terra dos esparcitas, sendo duramente explorados. Deviam cultivar essa terra a vida inteira e não podiam ser expulsos de seu lugar. Com seu trabalho, sustentavam os cidadãos (esparciatas). Desprezados socialmente, promoviam freqüentes revoltas contra o Estado. Para controlar as revoltas e manter os hilotas sob clima de terror, os espartanos organizavam expedições anuais de extermínio(criptias), que consistiam na perseguição e morte dos hilotas considerados perigosos.

Analisando a situação dos esparciatas, periecos e hilotas, alguns historiadores afirmam que os periecos, por dominar o comércio e o artesanato, podiam enriquecer, desfrutando de certo conforto material e liberdade. Os esparciatas, por sua vez, cumpriam obrigações tão pesadas em relação ao Estado que se tornaram vítimas de suas próprias instituições. Quanto aos hilotas, sua vida era marcada pela opressão e miséria.

O poder dos esparciatas

Esparta era governada por dois reis, um pertencente, tradicionalmente, à família dos Àgidas e o outro à família dos Euripôntides. Entre suas funções, destacavam-se os serviços de caráter militar e religioso. Em tempo de guerra, um dos reis exercia o comando dos exércitos.

A administração política era exercida, também, por três órgãos. O primeiro deles, chamado Gerúsia, era o concelho vitalício de Anciãos, constituído pelos dois reis e mais 28 esparciatas maiores de 60 anos. Tinha funções administrativa (supervisão), legislativa (elaboração de projetos de lei) e judiciária (tribunal superior). O segundo era a Ápela, assembléia formada por cidadãos espartanos maiores de 30 anos. Elegia os membros da Gerúsia e aprovava ou rejeitava as leis encaminhadas por eles. O terceiro órgão era o Conselho dos Éforos, grupo formado por cinco membros eleitos anualmente pela Ápela. Os éforos, com mandato de um ano, eram verdadeiros chefes do governo espartano: coordenavam as reuniões da Gerúsia e da Ápela e controlavam a vida econômica e social da cidade, podendo vetar os projetos de lei e fiscalizar as atividades dos reis.

Educação dos espartanos

O objetivo principal da educação espartana era transformar os cidadãos em bons soldados, capazes de manter a segurança da cidade. Nesse treinamento educacional eram muito importantes os treinamentos físicos, como salto, corrida, natação, lançamento de disco e dardo.

As mulheres espartanas recebiam educação quase igual à dos homens, participando dos torneios e atividades esportivas. O objetivo era dotá-las de um corpo forte para gerar filhos sadio e vigorosos.

Ao nascer, a criança espartana era inspecionada por membros do governo, que verificavam seu estado de saúde. Se fosse saudável, merecia os cuidados do Estado. Se fosse doente ou apresentasse alguma deficiência física ou mental, podia ser imediatamente morta.

De acordo com Plutarco (50-120 d.C.), quando nascia uma criança espartana, pendurava-se na porta da casa um ramo de oliveira (se fosse um menino) ou uma fita de lã (se nascesse uma menina). Havia rituais privados de purificação e reconhecimento da criança pelo pai, além de uma festa de nascimento conhecida como genetlia, na qual o recém-nascido recebia um nome e presentes de parentes e amigos. (Cf. Maria Beatriz B. Florenzano. Nascer, viver e morrer na Grécia antiga)

A partir dos 7 anos, os pais (cidadãos) não mais comandavam a educação dos filhos. As crianças eram entregues à orientação do Estado, que tinha professores especializados para esse fim. Vejamos alguns dos métodos da educação espartana, tendo como base o relato dos historiadores gregos Xenofonte (A constituição dos lacedemônios) e Plutarco (A vida de Licurgo).

Em lugar de proteger os pés com calçados, as crianças eram obrigadas a andar descalças, a fim de aumentar a resistência dos pés. Usavam um só tipo de roupa o ano inteiro, para que aprendessem a suportar as oscilações do frio e do calor.

A alimentação era bem controlada. Se alguma jovem sentisse fome em demasia, era permitido que furtasse para conseguir alimentos. Castigavam-se, entretanto, aqueles que fossem apanhados roubando.

Uma vez por ano, os meninos eram chicoteados em público, diante do altar de Ártemi (deusa grega vingativa, a quem se ofereciam muitos sacrifícios). Essa cerimônia constituia uma espécie de concurso público de resistência à dor física.

Na adolescência, os jovens eram encarregados dos serviços de segurança na cidade. Qualquer cidadão adulto podia vigiá-los e puni-los. O respeito aos mais velhos era regra básica. Às refeições, por exemplo, os jovens deviam ficar calados, só respondendo de forma breve às perguntas que lhes fossem feitas pelos adultos.

Com 20 anos, o jovem espartano entrava no exército. Mas só aos 30 anos de idade adquiria plenos direitos políticos, podendo, então, participar da Assembléia dos Cidadãos (Ápela).

Para o historiador italiano Franco Cambi, a educação desenvolvida em Esparta e Atenas constitui dois modelos educativos diferentes. Em Esparta, a perspectiva militar orientava a formação de cidadãos-guerreiros, defensores do Estado. Já em Atenas, predominava um tipo de formação mais livre e aberta, que, de modo mais amplo, valorizava o indivíduo e suas capacidades.

(Cf. Franco Cambi. História da pedagogia.)

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