Hesíodo
Keywords: Hesíodo, Amor, Beócia, Caos, Causalidade, Cronos, Genealogia, Hades, História, Homero
Poeta grego. Tudo o que se sabe com segurança sobre Hesíodo é o que ele mesmo narrou em seus poemas. Seu pai habitava em Cumes, na Eólia, onde possuía uma pequena empresa de navegação. Arruinado, voltou para e Beócia, terra de seus ancestrais. Aí, mais precisamente em Ascra, dedicou-se ao cultivo da terra. É também em Ascra que Hesíodo nasceu, viveu e morreu, no século VIII a.C.
Ao morrer, o pai deixou para Hesíodo e seu irmão Perses suas terras. Na partilha dos bens, contudo, sentiu-se Hesíodo prejudicado pelo irmão, que teria comprado os juízes. Esta polêmica com o irmão é o ensejo para a composição de uma de suas grandes obras: Os trabalhos e os dias. Além do trabalho rural, Hesíodo havia se tornado aedo (poeta popular), sob a inspiração das musas conforme o próprio autor relata na sua outra grande obra, a Teogonia.
Para Werner Jaeger, famoso helenista alemão, com Hesíodo surge o subjetivo na literatura. Na época antiga, o poeta era um simples veículo comandado pelas Musas; já Hesíodo assina sua obra para fazer uma história pessoal. Após exaltar as Musas que lhe inspiram, diz ele no começo da Teogonia: "Foram elas que, certo dia, ensinaram Hesíodo um belo canto, quando ele apascentava suas ovelhas ao pé do Hélicon divino".
O conteúdo deste belo canto é a origem dos deuses. Os velhos mitos constituem o ponto de partida mas Hesíodo os entrelaça e os enriquece traçando uma genealogia sistemática das divindades. A idéia de que seres individuais constituem o universo e estão vinculados por sucessivas procriações deriava da Teogonia. Nesta obra, há um esforço de pensamento racional que é sustentado pela causalidade e isto abrirá caminho para cosmogonias filosóficas posteriores. Primeiro teve origem o Caos, em seguida a Terra e o Amor (Eros), que é o criador de toda a vida. De Caos surge a sombra, constituída em um par: Érebo e a Noite. Da sombra, também surge um outro par: o Éter e a Luz (do dia). Terra dará nascimento ao céu, às montanhas e ao mar. Em seguida, é apresentado o nascimento dos filhos da luz, dos filhos da sombra e da descendência da Terra até o momento do nascimento de Zeus e de seu triunfo sobre seu pai, Cronos. A Teogonia enumera três gerações de deuses: a do Céu, a de Cronos e a de Zeus (esta geração é a dos olímpicos).
A interpolação dos episódios de Prometeu e de Pandora na seqüência da Teogonia (e depois retomados em Os trabalhos e os dias), justifica a condição humama: Prometeu rouba o fogo divino para dá-lo aos homens e isso atrai a ira de Zeus, que o condena à tortura de ter o figado eternamente devorado por uma ave. Para os mortais, o castigo foi menor: é determinada a criação de um ser à imagem e semelhança das deusas imortais que dará um presente em nome dos olímpicos aos mortais. Epimeteu, irmão de Prometeu, recebe o presente e, ao abri-lo, deixa escapar todas as mazelas do mundo conseguindo aprisionar apenas a esperança.
Já em Os trabalhos e os dias, a atenção se concentra sobre a história. Esta é vista como a perda de uma idade primeira, a raça de ouro, que viveu livre de cuidados e sofrimentos e que se transformou nos gênios bons, guardiões dos mortais. Em seguida, surge uma raça inferior, de prata, cujos indivíduos vivem uma longa infância de cem anos mas crescendo entregam-se a excessos e se recusam a "oferecer culto aos Imortais". Estes foram transformados em gênios inferiores, chamados bem-aventurados. Zeus criou então uma "terceira raça de homens perecíveis, raça de bronze, bem diferente da raça de prata". Fortes e violentos, munidos com armas de bronze, sucumbiram uns nas mãos dos outros e foram transportados para o Hades, "sem deixar nome sobre a terra". Em seguida, veio a raça dos heróis, que combateram em Tebas e Tróia. Para estes, Zeus reservou um lugar na ilha dos Bem-aventurados, onde vivem felizes e distantes dos mortais. Por último, surge a raça de ferro, que é o próprio tempo de Hesíodo, constituído por fadigas, misérias e angústias. Dias terríveis esperam esta raça: "O pai não mais se assemelhará ao filho nem o filho ao pai; o hóspede não será mais caro a seu hospedeiro, nem o amigo a seu amigo, nem o irmão a seu irmão".
Assim como o mito de Prometeu ilustra a idéia de trabalho, o mito das idades ilustra a idéia de justiça. Ao mesmo tempo, os temas se completam: o homem da idade do ferro é movido pelo instinto da luta; se esta se transforma em trabalho, torna-se emulação justa e feliz; se transforma-se em violência, constitui a própria perdição dos homens. As admoestações lançadas contra o irmão Perses inauguram, depois da ética cavalheiresca e aristocrática de Homero, a outra grande corrente de pensamento moral dos gregos, ou seja, de que a virtude é filha do esforço e de que o trabalho é fundamento e salvaguarda da justiça.
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