João Baptista

Keywords: João Baptista, Abraão, Baptismo, Caifás, Cristo, Da Vinci, Essénios, Flávio Josefo

Nota: Se procura outros significados de João Baptista, consulte: São João Baptista.

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João Baptista pintado por Da Vinci

São João Ba(p)tista passou certamente a infância no seio da sua família, em Ain Karim. Frequentava a sinagoga e a sua escola, Jerusalém e o Templo, que não ficavam longe e onde o pai era sacerdote. Mais adiante – 10 anos? – terá ido para o deserto.

«O menino crescia e fortalecia-se em espírito e morava no deserto, até ao dia de se apresentar em público a Israel» – escreveu São Lucas.

Bem provavelmente foi para a comunidade essénia de Qumran, que ficava a uns 20 km da sua terra. Como seu pai, também os Essénios eram da linhagem sacerdotal, embora se tivessem afastado do Templo. Viviam uma vida austera, em comunidade; sabe-se que recebiam crianças para educar. Aí aprofundaria o seu messianismo, colheria a ideia do baptismo, mergulharia no conhecimento das Escrituras.

São Lucas indica com precisão a data em que São João Baptista inicia a sua pregação:

No décimo quinto ano do governo de Tibério César, sendo Pôncio Pilatos governador da Judeia, Herodes tetrarca da Galileia, e seu irmão Filipe tetrarca da Itureia e da Traconítide, e Lisânias tetrarca de Abilene, sob o pontificado de Anás e Caifás, a palavra de Deus foi dirigida a João filho de Zacarias, no deserto.

Se de facto, esteve de algum modo ligado à comunidade de Qumran, tê-la-á abandonado antes de iniciar a actividade profética. O pai tê-lo-ia elucidado sobre a missão que o esperava e João facilmente verificaria que a vida cenobítica, que poderia ter sido útil até certa data, não se coadunava com essa missão. Além disso, quando São Lucas diz que «a palavra de Deus foi dirigida a João filho de Zacarias, no deserto» são palavras para tomar a sério. O próprio São João Baptista há-de confirmar que recebeu comunicações celestes.

De então dataria a sua indumentária profética: uma veste de pêlos de camelo e um couro à cintura, bem como a original dieta de «gafanhotos e mel silvestre».

João será então um homem culto, um carismático; sabe-se o último profeta, o «Elias» prometido, o Precursor. A sua pregação ateia a esperança. Por isso «todo o povo» acorre a ele.

Pelos 30/32 anos, baptiza Jesus, em quem reconhece o Cristo, o Ungido, aquele que vem cumprir as promessas das Escrituras. Terá tido então o momento supremo da sua vida.

Nesta altura é já um Mestre, com uma roda de discípulos. Alguns deles vão transitar para Jesus Cristo, vindo a tornar-se importantes apóstolos.

Algum tempo mais adiante, a sua crítica aos amores ilícitos de Herodes Antipas levá-lo-á à prisão e posteriormente ao martírio, por decapitação, em Maqueronte.

Conteúdo

Os lugares

Convém dizer algumas palavras sobre os lugares que encontramos quando reflectimos sobre a vida de São João Baptista. «Até ao dia de se apresentar em público a Israel», ele foi um morador do deserto, o Deserto da Judeia. Era aí que ficava Qumran, a norte do Mar Morto.

A aridez deste deserto prolonga-se para norte, já mais mitigada. São João vai, depois, viver nas imediações do Jordão. De facto é assim que ensina São Lucas:

João percorreu toda a região do Jordão, pregando um baptismo de conversão para o perdão dos pecados (…)

Acolhia-se certamente em grutas. Como pelo menos tinha de beber água, teria sempre alguma vegetação por perto. Sem ela, também não haveria mel.

Próximo ficava a célebre e antiquíssima cidade Jericó, onde Herodes o Grande construíra três palácios. Por perto também passava uma estrada importante, que corria a oriente do Jordão, paralela ao seu leito. Era certamente por ela que acorriam as multidões que o vinham escutar e ser baptizadas. De nascente, vinha outra estrada para Jerusalém.

Segundo Flávio Josefo, o Baptista teve o seu trágico fim a sudeste do Mar Morto, nas masmorras do palácio de Herodes Antipas. Mas a zona da foz do Jordão foi sempre o seu ponto de partida e de chegada.

«Eis o Cordeiro de Deus…»

O Baptista privilegiava a linguagem por imagens, como há-de fazer Jesus Cristo. Reflecte-se às vezes nas suas invectivas a aspereza do deserto.

Eis alguns exemplos:

Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira que vem? Produzi, pois, frutos de verdadeira conversão e não vos ilusdais, dizendo a vós mesmos: Temos Abraão por pai. Pois eu digo-vos: Deus pode fazer nascer destas pedras filhos de Abraão. O machado já está posto sobre a raiz das árvores; toda árvore que não der bons frutos será cortada e lançada ao fogo.

Repare-se também nesta citação onde as imagens, de proveniência muito distinta, se sucedem: do rito ablucional do baptismo, da actividade bélica, do gesto vulgar de apertar/desapertar o calçado, da capacidade purificadora do fogo e da actividade agrícola:

Eu vos baptizo com água, mas vem outro mais forte do que eu, de quem não sou digno de desatar a correia das sandálias. Ele vos baptizará no Espírito Santo e no fogo. Já está com a peneira na mão para limpar o seu terreiro: ele recolherá o trigo ao celeiro, mas queimará a palha num fogo que não se apaga.

Muitas vezes é uma mensagem de radical, de imperiosa mudança. Os seus comentadores falam de metanóia, palavra originado do verbo grego que significa arrepender, para caracterizar a sua mensagem moral.

Mas esta não é a única linguagem do Baptista. Veja-se este belo exemplo do seu costumado estilo alegórico:

Vós mesmos me sois testemunhas de que eu disse: Não sou o Cristo, mas sou enviado adiante dele. Quem tem a noiva é o noivo. O amigo do noivo, que está presente e o ouve, muito se alegra com a voz do noivo. Assim, pois, este meu gozo está completo.

A sua grande frase vem no Evangelho do seu ex-discípulo São João:

Eis o Cordeiro de Deus, o que tira o pecado do mundo!

A expressão «Cordeiro de Deus» nasce do rito do cordeiro pascal; na citação, porém, este já não é dos homens, mas de Deus. De Deus, em favor dos homens, do mundo. A segunda metade da proclamação declara a universalidade da missão de Jesus Cristo.

A morte

Segundo o historiador Flávio Josefo, que escreveu por finais do século I, Herodes mandou matar o Baptista, depois de o reter 10 meses na prisão, em Maqueronte, argumentando tratar-se de um chefe de rebeldes. Dada a sua popularidade, não seria difícil acusá-lo de algo semelhante.

Os Evangelhos dão-nos outra versão: a sua morte fora devida ao desassombro com que ele denunciava a imoralidade régia. Embora seja bem possível associar as duas razões, os apóstolos são à partida testemunhas mais credenciadas: conheceram-no pessoalmente, alguns foram seus discípulos, a relação entre o Baptista e Jesus foi variada e demorada.

São Marcos relata assim a morte do Precursor:

O rei Herodes ouviu falar de Jesus, pois o seu nome tornara-se famoso. Uns diziam: "É João Batista que ressuscitou dos mortos; por isso, um poder milagroso age nele". Outros, porém, diziam: "É Elias". E outros ainda afirmavam: "É um profeta, como qualquer profeta". Mas Herodes, ouvindo isso, repetia: "É João, a quem mandei degolar; é ele que ressuscitou".
É que Herodes tinha mandado prender João e metê-lo acorrentado na cadeia, por causa de Herodíades, mulher de seu irmão Filipe, com a qual se tinha casado. Com efeito, João dizia a Herodes: "Não te é permitido viver com a mulher de teu irmão". Herodíades tinha ódio a João e queria matá-lo mas não conseguia. Mas Herodes respeitava João, sabendo tratar-se de homem justo e santo, e protegia-o. Quando ouvia João, sentia-se embaraçado, mesmo assim gostava de ouvi-lo.
Chegou um dia oportuno, quando, por ocasião do seu aniversário, Herodes ofereceu um banquete aos grandes da sua corte, aos comandantes e pessoas ilustres da Galileia.
A filha de Herodíades entrou e pôs-se a dançar, agradando ao rei e aos convidados. Herodes disse à moça: "Pede-me o que quiseres e eu te darei". E jurou-lhe : "Tudo que me pedires eu to darei, ainda que seja a metade de meu reino". Ela saiu e foi perguntar à mãe: "O que é que eu peço?" Esta respondeu-lhe : "A cabeça de João Baptista". Ela voltou apressadamente à presença do rei e fez o pedido: "Quero que me dês agora mesmo, numa bandeja, a cabeça de João Baptista".
O rei ficou triste, mas não quis deixar de atendê-la por causa do juramento e dos convidados. Sem tardar, mandou um carrasco com a ordem de trazer a cabeça de João. Ele foi e degolou João na cadeia. Depois trouxe a cabeça numa bandeja e a deu-a à moça, que a entregou à mãe.
Sabedores do facto, os discípulos de João vieram buscar o corpo e sepultaram-no.
Marcos 6, 14-29

Flávio Josefo, por sua vez, conta-a assim:

Agora alguns dos judeus pensavam que a destruição do exército de Herodes (frente a Aretas) viera de Deus e muito justamente, como castigo do que tinha feito contra João, que era chamado o Baptista, pois Herodes matou-o, ele que era um bom homem e insistia com os judeus para que praticassem a virtude, ao mesmo tempo como rectidão de uns para com os outros e piedade para com Deus, e assim aceitarem o baptismo. Porque a lavagem com água ser-lhe-ia aceitável, se a usassem não só para a remissão de alguns pecados, mas para a purificação do corpo, supondo todavia que a alma estava inteiramente purificada antecipadamente pela rectidão.
Agora, quando muitos vinham em multidão até ele, porque lhes agradava ouvir as suas palavras, Herodes, que temia que a grande influência que João tinha sobre o povo pudesse induzi-lo à rebelião — pois as pessoas pareciam prontas a fazer o que quer que ele lhes sugerisse — pensou que era melhor matá-lo para prevenir qualquer dano que ele pudesse causar, antes que se arrependesse por ser tarde. Assim, ele foi enviado como prisioneiro para Maqueronte, o castelo que já mencionei, e aí morto.
Agora os judeus pensavam que a destruição do exército fora enviada como castigo a Herodes e que era um sinal do desagrado de Deus para com ele.

Curiosidade: de São João Baptista às notas da música

Sabe-se que foi a partir das sílabas iniciais dos versos da primeira estrofe do hino litúrgico em honra de São João que se formaram os nomes das notas musicais. Veja-se como:

Ut queant laxis
Ressonare fibris
Mira gestorum
Famuli tuorum,
Solve polluti
Labii reatum,
Sancte Johannes.


O ut foi depois substituído por . O si, esse é constituído pelas letras iniciais latinas de Sancte Johanes (São João: o j lia-se como i).

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