Maria Judite de Carvalho
Keywords: Maria Judite de Carvalho, 1921, 1949, 1955, 1998, Albert Camus, Bélgica, Camilo Castelo Branco, Europa
Maria Judite de Carvalho (Lisboa, 1921-Lisboa, ], escritora portuguesa, casada com Urbano Tavares Rodrigues, viveu na Europa (França e na Bélgica) entre 1949 e 1955. Apesar da notória qualidade e profundidade da sua obra e da sua escrita (entre o poético e novelista, entre o cómico e o grotesco, num registo ora trágico, ora ironicamente perverso), a autora permanece ainda desconhecida do grande público.
"Maria Judite de Carvalho permanece uma escritora de actualidade renovada, difícil de catalogar no estilo que geralmente lhe é associado (herdeiro do existencialismo e do chamado “novo romance”), hábil dissecadora do desespero e da solidão quotidiana na grande cidade.", conforme referido em http://www.mulheres-ps20.ipp.pt/Maria-Judite-de-Carvalho.htm.
Alguns apontamentos sobre a sua obra
"Listening to silences", a mulher consegue contemplar "O deus das pequenas coisas" e absorver a voz quase surda do sofrimento, da solidão e do abandono. É esta atenção ao silêncio a ao quase (im)perceptível que parece ter sido o impulso genesíaco da obra de Maria Judite de Carvalho, irmã-fêmea que partilha, com Vergílio Ferreira, a temática do silêncio como veículo de significação e enquanto voz primordial, endo e exógena, do "eu".
O Silêncio aparece, na sua obra, como consequência da incompreensão que advém do cruzamento de vozes, de diálogos de surdos e de monólogos, sendo fruto da Solidão e do abandono tantas vezes (pres)sentido pelas suas personagens.
Todavia, a Solidão de uma Mariana e de um António distinguem-se pelo facto de, a primeira, advir da personagem e de um mundo que se desagrega à sua volta e, a segunda, de um sentimento de abandono de Deus e da consequente procura infrutífera de um sentido maior para a existência humana.
Estes exemplos, embora aqui apresentados como paradigmáticos, não revelam a riqueza de conotações de um Silêncio que, no conjunto da sua criação, é plurissignificativo e advém de uma problemática existencialista bastante abrangente: a Solidão como essência da condição humana e do próprio ser.
É neste sentido que a escrita de Maria Judite de Carvalho aparece: uma tomada de uma posição perante o Silêncio e a Solidão; uma última arma frente ao abandono e à tentativa de cruzar irremediavelmente os braços. ; um analgésico perante a dor de viver absurdamente, vogando ao acaso, sem vela nem âncora.
Nas personagens de Mª Judite de Carvalho projecta-se a solidão enquanto presença constante da inquietação e do desassossego, da depressão, da negatividade, da autodenegação e da vontade de se dissipar:
Não está ofendida mas cheia de desespero.
Sou uma ilha, Paula."
Não acontecem muitas coisas importantesna vida das pessoas.
Envergonhada de existir e de ele lhe apertar friamente a mão.
De facto, a solidão aparece como espelho de um mundo de desconforto, de despeito, de desordem de sentimentos, de desamor, de desconfiança, de desespero e de repugnância pelos outros como por si próprio, como nos mostram estas palavras de Mariana:
A minha letra de agora engelhou e amoleceu como a minha cara e as minhas mãos, com o seu próprio corpo de seios flácidos,de carne desbotada e só.
De facto, esta é talvez a personagem mais emblemática da uma solidão que nasce da incomunicabilidade com os outros, dos desencontros, da inexorabilidade do tempo que desgasta as personagens até as deixar despidas e sós:
Eles falavam e de repente eu estava só, tão só que voltei a ter, como havia muitos anos, vontade de chorar.
E a vida a gastar-se cada dia mais, a gastar-se sem eu a ter vivido.
O desencanto e o vazio que povoam a vida da protagonista de Tanta gente, Mariana não nasceram exclusivamente da sucessão de factos que se acumularam, qual puzzle desordenado, mas da sua própria vivência íntima:
Troquei tudo, baralhei todas as coisas a ponto de me não achar a mim própria.
A solidão de que sofre esta e outras personagens do universo ficcional de Maria Judite de Carvalho, nasce da falência do amor, dos projectos e das esperanças, que aparecem repentinamente nas vidas para se esfumarem, ironicamente, logo de seguida.
A história das esperanças-fátuas de Mariana, pode comparar-se à história de Fausto, do conto Tudo vai mudar. De facto, Fausto, cansado de um emprego que não o realiza pessoal e economicamente, fustigado por um quotidiano doméstico que o enjoa e já sem esperança num casamento capaz de redimir a filha, feia e pouco atraente, "não tem pena de se ir embora" , uma vez que "tem vivido - há quantos anos ! - de esperanças construídas no ar, sem alicerces nem paredes mestras nem telhado."
A morte que Mariana ensaia quando revela que "nesse dia sim, pensei em matar-me" , também foi planeada por Fausto. Ambos os suicídios falhados. Todavia, Fausto, quando lhe é apresentada a esperança de mudar (daí o título do conto), morre, num quadro de ironia trágica, quando regressava a casa, já com algum fôlego de vida em si e fato novo. Daqui advém uma visão profundamente pessimista e irónica da vida que aproxima a autora do Existencialismo de um Jean-Paul Sartre ou de um Albert Camus: a moral destes contos em que se contam retalhos da vida de pessoas banais, parece ser a de que, quando as coisas parecem ter solução, tudo lhes é retirado, até a vida.
Estas pessoas banais que preenchem o mundo, não só foram, frequentemente, estranguladas pelas circunstâncias (veja-se o caso da protagonista de Armários Vazios, que procura, depois da morte do marido, perceber o desamor e a traição que nunca pressentira, bem como refazer as suas memórias), como também vítimas da sua auto-frustração e limitação interior, como no caso de Adérito (protagonista de A vida e o sonho) que, perante a possibilidade de concretizar o seu sonho, opta por continuar a sonhar.
A existência sem história das personagens desta autora constitui a tela sobre a qual se ilustram vidas de abandonos (novamente a inevitabilidade de pensar em Mariana), de angústias (como no conto Noite de Natal) e de uma solidão irremediável que atinge brutalmente os protagonistas dos contos Impressões Digitais, Vínculo Precário e O Grito, para citar apenas alguns.
É essa solidão irreversível, qual seta despedida que não volta ao arco, que conduz Camila (do conto, já mencionado, O Grito) ao suicídio e que provoca a morte de Joaquim (de Impressões Digitais). A morte é, pois, vislumbrada como uma das soluções mais plausíveis para uma vida desfragmentada, absurda e imbecil, capaz até de vencer a temporalidade da vida; o suicídio é apresentado, não como um acto de coragem ou de loucura, mas como um acto de profunda lucidez e de angústia existencial:
Agora os sonhos já não chegam, porque tudo se tornou grande demais. Triste demais. E Fausto quer morrer. A morte aparece-lhe como única solução. É calma, a serenidade. Deus? Foi-se perdendo aos poucos, sem dar por isso,no decorrer da sua vida. (…) A verdade é que Deus nunca mais deu sinal de si e Fausto nunca soube procurar os outros, implorar o amor dos outros,fossem eles deuses ou homens. E agora está só.
Como este excerto ilustra, a solidão advém do abandono da entidade divina (consolo e justificação ), da incapacidade de a procurar e da incapacidade de conviver com o outro: há quase uma inata inaptência para a vida, hipotética amostra da própria inaptência da autora.
Também a protagonista Mariana revela uma inaptidão para a felicidade e para a vida: Tanta gente, Mariana retrata a solidão de uma mulher e a impotência perante a frágil possibilidade de lhe escapar. A vida de Mariana é apresentada como uma sucessão de vínculos precários à vida que, de tão precários se vão esbatendo até desapareceram; por este motivo, a protagonista revela que se sente, no fim da sua breve vida, "mais só do que nunca, embora sempre o tivesse estado".
Para a agudização dessa solidão contribuiram as sucessivas personagens que foram cruzando a sua vida: "a minha vida é um tronco a que foram secando todas as folhas e, depois, um após outro, todos os ramos". Esta desagragação, embora pressentida desde cedo (15 anos), não se concretiza de imediato uma vez que a juventude e o amor por António parecem camuflar a irreversibilidade da caminhada para uma solidão perene: "E a vida a gastar-se cada dia mais (...).".
De facto, a solidão não vem só do mundo, mas também de dentro da personagem e, todos os acontecimentos da sua vida (a que ela chama, expressivamente, "duração") se encarregam de a sacudir para a solidão e de a empurrar para uma espécie de marginalidade social: António, o marido, troca-a por Estrela; Luís Gonzaga abdica de qualquer compromisso, deixando-a grávida do filho que sempre quisera ter. Essa gravidez, sonho que desfaz outros sonhos e projectos, é violentamente interrompida por um atropelamento, morrendo o feto dentro de Mariana e impossibilitando o nascimento de qualquer outro sucessor. A mesma gravidez provoca o despedimento do local de trabalho e o corte de relações com a sua melhor amiga, Lúcia.
Quando surge a possibilidade de uma nova oportunidade de vida, proporcionada por um novo emprego, tudo é, nova e ironicamente, arrasado, desta vez devido à doença da futura patroa.
Até à hora da morte, Mariana sente a inexorabilidade da solidão e sabe que nada mudará o curso da sua vida vazia:
Sei que não posso esperar mais nada da vida e quero por isso sentir-me calma. Quero… É o meu fim, o único. Não posso escolher outro, não há outro para mim. Pela primeira vez alguém me vem buscar, alguém me procura. Por que não hei-de estar feliz, eu, a escolhida? E não posso. Sinto-me violada e virgem. Muitas coisas em mim e completamente vazia. Vazia porque até a esperança se foi.
Perante as evidências de uma vida que se escapa, a protagonista conclui que "não era ela quem construía o muro, não era ela também quem adiantava o tempo. Tudo lá estava, preparado para a sua chegada, à sua espera". Do mesmo modo, a consciência de que tudo era irreversível permite-lhe desculpar as personagens que foram desaparecendo e fugindo ao seu convívio e, igualmente, culpar-se pelo vácuo em que se tornou a sua vida:
Troquei tudo, baralhei todas as coisas a ponto de me não achar a mim própria. (…) Eu escolhi sempre mal.
A vida de Mariana acaba por resumir-se através das palavras de seu pai, algo incompreendidas na adolescência, mas sentidas, com angústia, à hora da morte:
Todos estamos sozinhos e muita gente à nossa volta. Tanta gente, Mariana! E ninguém vai fazer nada por nós.
Alguns dos títulos dos contos de Maria Judite de Carvalho ilustram, quase como uma bandeira, um universo ficcional trespassado pelo vazio, pelo silêncio, pela irreversibilidade do tempo e pelo fingimento: As Palavras Poupadas (1960) revelam a recusa do discurso excessivo, numa postura de rasura do supérfluo; Paisagem sem Barcos (1963), Armários Vazios (1966) e o título dos contos Impressões Digitais e Vínculos Precários sugerem o vazio que preenche as vidas e a superficialidade das acções humanas; A Janela Fingida (1975) parece querer ilustrar o provérbio "nem tudo o que parece é", havendo sempre lugar para a mentira, para a omissão, isto é, para o fingimento; para finalizar esta enumeração, Seta Despedida (1995) e o seu conto Sentido Único mostram, como nos revela a narradora do conto com que se inicia a obra mencionada, que "o tempo foi passando. Seta despedida não volta ao arco" .
Maria Judite de Carvalho, sobretudo nos seus contos, tem, desde os títulos, uma tendência para nomear as suas pretagonistas, colocando os leitores imediatamente perante personagens concretas e distintas: Rosa, numa pensão à beira mar, Anica nesse tempo, George, Tanta gente, Mariana, A avó Cândida, A menina Arminda, ou, menos directamente e mais discretamente, Uma senhora, A Mãe e A Noiva Inconsolável.
Esta tendência para a nomeação, mesmo nos contos em que o nome do protagonista só nos é dado a conhecer já no final do conto, pode ser um elemento conscientemente usado pela autora para nos mostrar que o problema da Mariana, da Anica ou da Arminda são os problemas do Homem, servindo para projectar o individual na esfera do universal.
Apesar das nuances que percorrem a temática da Solidão e do abandono, a sua obra percorre, persistentemente, o mesmo caminho, sem nunca o desvendar completamente, uma vez que a explicação é substituída pela insinuação e pela sugestão (daí, talvez, a opcção por uma escrita "limpa", sem excessos estilísticos, a por narrativas breves).
Bibliografia
- Tanta Gente, Mariana (contos), Lisboa: Europa América, 1988.
- As Palavras Poupadas (contos), Lisboa: Europa América,1988. (Prémio Camilo Castelo Branco).
- Paisagem sem Barcos (contos), Lisboa: Europa América, 1990.
- Os Armários Vazios (romance), Lisboa: Livraria Bertrand, 1978.
- O Seu Amor por Etel (novela), Lisboa: Movimento, 1967.
- Flores ao Telefone (contos), Lisboa: Portugália Editora, 1968.
- Os Idólatras (contos), Lisboa: Prelo Editora, 1969.
- Tempo de Mercês (contos), Lisboa: Seara Nova, 1973.
- A Janela Fingida (crónicas), Lisboa: Seara Nova, 1975.
- O Homem no Arame (crónicas), Amadora: Editorial Bertrand, 1979.
- Além do Quadro (contos), Lisboa: O Jornal, 1983.
- Este Tempo (crónicas) Lisboa: Editorial Caminho, 1991.(Prémio da Crónica da Associação Portuguesa de Escritores).
- Seta Despedida (contos), Lisboa: Europa América, 1995.(Prémio Máxima, Prémio da Associação Internacional dos Críticos Literário, Grande Prémio do Conto da Associação Portuguesa de escritores, Prémio Vergílio Ferreira das Universidades Portuguesas).
- A Flor Que Havia na Água Parada (poemas), Lisboa: Europa América,1998 (póstumo).
- Havemos de Rir! (teatro), Lisboa: Europa América,1998 (póstumo).
