Língua mirandesa
Keywords: Língua mirandesa, Arqueólogo, Bragança, Castelhano, Filólogo, Latim, Língua portuguesa, Macedo de Cavaleiros, Miranda do Douro, Mogadouro
Em terra de muito boas e ricas tradições, num canto do Nordeste português, fala-se uma língua com um corpo gramatical perfeito (fonética, fonologia, morfologia e sintaxe próprias) que, sem ser portuguesa, vem do tempo da formação de Portugal (século XII): é o mirandês ou língua mirandesa. De raiz latina (latim falado no Norte da Península Ibérica) e fazendo parte do grupo dos dialectos leoneses, manteve-se, até hoje, por ter vivido à margem desse grupo linguístico e do país a que pertence (acasos da História e entraves geográficos). Em finais do século XIX, descrevia-a José Leite de Vasconcelos como "a língua do campo, do trabalho, do lar, e do amor entre os mirandenses".
Hoje, é usada no dia a dia por 15.000 pessoas das aldeias do concelho de Miranda do Douro e de três [aldeias] do concelho de Vimioso, num espaço de 484 km2, estendendo-se a sua influência por outras aldeias dos concelhos de Vimioso, Mogadouro, Macedo de Cavaleiros e Bragança.
Espaço pequeno mas de grande riqueza linguística. Nele podemos encontrar algumas diferenças quer fonéticas, quer vocabulares de terra para terra (Mirandês Central ou Normal, Mirandês Setentrional ou Raiano, Mirandês Meridional ou Sendinês) e ver que as pessoas são bilingues ou trilingues, pois falam o mirandês, o português e o castelhano.
Os textos recolhidos, por exemplo, mostram a envolvência de traços fonéticos, sintácticos ou vocabulares das diferentes línguas e que o português é mais cantado porque considerado, pelos mirandenses, como língua culta, fidalga, importante. Tendo a Língua Mirandesa uma forte tradição oral, passando de pais para filhos ao longo dos tempos, só em 1882, por José Leite de Vasconcelos, ilustre filólogo, arqueólogo e etnógrafo português, começou a ser escrita e investigada. (Ele abre a História literária mirandesa publicando uma mão-cheia de poesias suas e de Camões num livro intitulado, "Flores Mirandesas": traduz muitas peças de Camões; recolhe nas aldeias de Miranda vários contos, histórias, lendas, fábulas, provérbios, adivinhas, cantigas d'amor, de humor, de devoção, etc.; escreve ainda o ensaio "O Dialecto Mirandês", com o qual ganhou o galardão das Sociedades das Línguas Românicas de Montpellier, e os "Studos de Filologie Mirandesa" I e II, 1901.)
Manuel Sardinha (traduz poesias de Antero de Quental); Bernardo Fernandes Monteiro (traduz os quatro Evangelhos: São Lucas, São Marcos, São Mateus e São João, quase totalmente inéditos, tendo Trindade Coelho publicado excertos nos jornal "O Repórter", em 1896, e Gonçalves Viana outros na "Revista de Educação e Ensino" com texto por ele revisto, escreve ainda textos vários em prosa que publica no jornal "O Mirandez"); António Maria Mourinho (publica um livro de poesias de sua autoria "Nossa Alma e nossa Terra", 1961; e "Scoba Frolida An agosto/Lhiênda de Nôssa Senhora de l Monte de Dues Eigreijas", 1979; "Ditos Dezideiros", 1995; Manuel Preto "Bersos Mirandeses", 1993; Moisés Pires "Eilementos de Gramática Mirandesa", inédito; e "Pequeinho Bocabulário Mirandês-Pertuês", 2004) entre outros, seguiram-lhe os passos, estando agora a escrita a florescer. Foi dentro deste espírito que este ano se estabeleceu uma Convenção Ortográfica, interamente patrocinada pela Câmara Municipal de Miranda do Douro e levada a cabo por um gruop de entendidos linguístas, que tem em vista estabelecer regras claras para escrever, ler e ensinar mirandês bem como estabelecer uma escrita o mais unitária possível e consagrar o mirandês como língua minoritária de Portugal.
O desenvolvimento, a vida moderna, a TV e as pressões do português e do castelhano são perigos que ameaçam o Mirandês nos dias de hoje. Por isso, em sua defesa, se têm tomado algumas medidas: O ensino oficial nas escolas preparatórias do concelho de Miranda do Douro, como opção, desde o ano de 1986/1987, graças a uma autorização ministerial de 9 de Setembro de 1985. A publicação., pela Câmara Municipal de Miranda do Douro, de vários livros sobre e em Mirandês. A realização, pela Câmara Municipal, de um festival da canção e de um concurso literário anuais. O seu uso em festas e celebrações da cidade (discursos, missas, etc.) ? e de vez em quando, na imprensa, rádio e televisão.
O seu estudo por centros de investigação portugueses como o centro de linguística da Universidade de Lisboa com o projecto "Atlas Linguístico de Portugal", e a Universidade de Coimbra, que levou a cabo o "Inquérito Linguístico Bolêo". Divulgação nos meios de comunicação. Conferências, etc.
Embora ainda sem um estatuto jurídico e sendo escassas as medidas de protecção e promoção oficiais da Língua Mirandesa, o certo é que fruto deste trabalho está, nos últimos tempos, a ser muito badalada e estudada, a revitalizar-se e a ganhar um estatuto de afirmação dentro e fora da sua região, permitindo olhar com firmeza um futuro agradável, pois há bons indicadores.
Com grande importância romanística (pela sua rica História linguística, a sua valiosa fonologia, mais complicada que a portuguesa e a castelhana, o seu conservadorismo... Alguns exemplos a partir do latim: manutenção do f inicial: FAME = fame; palatalisação da consoante inicial L: LINGUA = lhengua; manutenção das consoantes l e n em posição intervocálica: LUNA = lhuna, MALU = Malo; palatalisação das consoantes duplas ll/nn/mn: CASTELLU = castiêlho, ANNU = anho, DAMNU = danho; ditongação da vogal breve e em posição tónica: FERRU = fiêrro, etc., etc.), afectiva e cultural, os mirandeses começam já a ter orgulho da sua língua, herança que muito os honra, distingue e identifica.
Mirandes
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