Natália Correia
Keywords: Natália Correia, Almada Negreiros, Ary dos Santos, Açores, David Mourão-Ferreira, Estado Novo, Fajã de Baixo, Hino dos Açores, Humberto Delgado, Ilha de São Miguel
Natália de Oliveira Correia (1923-1993) foi uma intelectual e activista social de origem açoriana, autora de extensa e variada obra publicada, com predominância para a poesia. Deputada à Assembleia da República (1980-1991), interveio politicamente ao nível da cultura e do património, na defesa dos direitos humanos e dos direitos das mulheres. Autora da letra do Hino dos Açores.
A obra de Natália Correia estende-se por géneros variados, desde a poesia ao romance, teatro e ensaio. Colaborou com frequência em diversas publicações portuguesas e estrangeiras. Foi uma figura central das tertúlias que reuniam em Lisboa nomes centrais da cultura e da literatura portuguesas nas décadas de 1950 e 1960. Ficou conhecida pela sua personalidade livre de convenções sociais, vigorosa e polémica, que se reflecte na sua escrita. A sua obra está traduzida em várias línguas.
Biografia
Natália Correia nasceu na Fajã de Baixo, ilha de São Miguel, Açores, a 13 de Setembro de 1923. Quando tinha apenas 11 anos o pai emigra, fixando-se Natália com a mãe e a irmã em Lisboa, cidade onde faz estudos liceais. Iniciou-se na literatura com a publicação de uma obra destinada ao público infanto-juvenil mas rapidamente se afirmou como poetisa.
Notabilizada através de diversas vertentes da escrita, já que foi poeta, dramaturga, romancista, ensaísta, tradutora, jornalista, guionista e editora, tornou-se conhecida na imprensa escrita e, sobretudo, na televisão, com o programa Mátria, onde advogou uma forma especial de feminismo – afastado do conceito politicamente correcto do movimento — o matricismo —, identificador da mulher como arquétipo da liberdade erótica e passional e fonte matricial da humanidade; mais tarde, à noção de Pátria e de Mátria acrescenta a de Frátria.
Dotada de invulgar talento oratório e grande coragem combativa, tomou parte activa nos movimentos de oposição ao Estado Novo, tendo participado no MUD (Movimento de Unidade Democrática, 1945), no apoio às candidaturas para a Presidência da República do general Norton de Matos (1949) e de Humberto Delgado (1958) e na CEUD (Comissão Eleitoral de Unidade Democrática, 1969). Foi condenada a três anos de prisão, com pena suspensa, pela publicação da Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, considerada ofensiva dos costumes, (1966) e processada pela responsabilidade editorial das Novas Cartas Portuguesas de Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta. Foi responsável pela coordenação da Editora Arcádia, uma das grandes editoras portuguesas do tempo.
A sua intervenção política pública levou-a ao parlamento, para onde foi eleita em 1980 nas listas do PPD (Partido Popular Democrático, passando a independente. Foi autora de polémicas intervenções parlamentares, das quais ficou célebre a réplica sobre a fertilidade de um deputado da bancada oposta.
Fundou em 1971, com Isabel Meireles, Júlia Marenha e Helena Roseta, o bar Botequim, onde durante as décadas de 1970 e 1980 se reuniu grande parte da intelectualidade portuguesa. Foi amiga de António Sérgio (esteve associada ao Movimento da Filosofia Portuguesa), David Mourão-Ferreira (“a irmã que nunca tive”), Mário Soares, José-Augusto França (“a mais linda mulher de Lisboa”), Luiz Pacheco (“esta hierofântide do século XX”), Almada Negreiros e Ary dos Santos. Conviveu ainda com escritores como Henry Miller, Graham Green e Ionesco.
Natália Correia recebeu, em 1991, o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores pelo livro Sonetos Românticos. No mesmo ano foi-lhe atribuída a Ordem da Liberdade; era já detentora da Ordem de Santiago.
Faleceu em Lisboa a 16 de Março de 1993. Legou a maioria dos seus bens à Região Autónoma dos Açores, que lhe dedicou uma exposição permanente na nova Biblioteca Pública de Ponta Delgada, instituição que tem à sua guarda parte do seu espólio literário (que partilha com a Biblioteca Nacional de Lisboa, constante de muitos volumes éditos, inéditos, documentos biográficos, iconografia e correspondência, incluindo múltiplas obras de arte e a biblioteca privada.
Bibliografia activa
- Grandes Aventuras de um Pequeno Herói (Romance Infantil), 1945
- Anoiteceu no Bairro (Romance), 1946 ; 2004
- Rio de Nuvens (Poesia), 1947
- Descobri Que Era Europeia: impressões duma viagem à América (Viagens), 1951 ; 2002
- Sucubina ou a Teoria do Chapéu (Teatro), em colab. com Manuel de Lima, 1952
- Poemas (Poesia), 1955
- Dimensão Encontrada (Poesia), 1957
- O Progresso de Édipo (Poema Dramático), 1957
- Passaporte (Poesia), 1958
- Poesia de Arte e Realismo Poético (Ensaio), 1959
- Comunicação (Poema Dramático), 1959
- Cântico do País Emerso (Poesia), 1961
- A Questão Académica de 1907 (Ensaio), 1962
- Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica: dos cancioneiros medievais à actualidade (Antologia), 1965 ; 2000
- O Homúnculo, tragédia jocosa (Teatro), 1965
- Mátria (Poesia), 1967
- A Madona (Romance), 1968 ; 2000
- O Encoberto (Teatro), 1969 ; 1977
- O Vinho e a Lira (Poesia), 1969
- Cantares dos Trovadores Galego-Portugueses (Antologia), 1970 ; 1998
- As Maçãs de Orestes (Poesia), 1970
- Trovas de D. Dinis, [Trobas d'el Rey D. Denis] (Poesia), 1970
- A Mosca Iluminada (Poesia), 1972
- O Surrealismo na Poesia Portuguesa (Antologia), 1973 ; 2002
- A Mulher, antologia poética (Antologia), 1973
- O Anjo do Ocidente à Entrada do Ferro (Poesia), 1973
- Uma Estátua para Herodes (Ensaio), 1974
- Poemas a Rebate, (poemas censurados de livros anteriores) (Poesia), 1975
- Epístola aos Iamitas (Poesia), 1976
- Não Percas a Rosa. Diário e algo mais (25 de Abril de 1974 - 20 de Dezembro de 1975) (Diário), 1978 ; 2003
- O Dilúvio e a Pomba (Poesia), 1979
- Erros Meus, Má Fortuna, Amor Ardente (Teatro), 1981 ; 1991
- Antologia de Poesia do Período Barroco (Antologia), 1982
- Notas para uma Introdução às Cantigas de Escárnio e de Mal-Dizer Galego-Portuguesas (Ensaio), 1982
- A Ilha de Sam Nunca: atlantismo e insularidade na poesia de António de Sousa (Antologia), 1982
- A Ilha de Circe (Romance), 1983 ; 2001
- A Pécora, peça escrita em 1967 (Teatro), 1983 ; 1990
- O Armistício (Poesia), 1985
- Onde está o Menino Jesus? (Contos), 1987
- Somos Todos Hispanos (Ensaio), 1988 ; 2003
- Sonetos Românticos (Poesia), 1990 ; 1991
- As Núpcias (Romance), 1992
- O Sol nas Noites e o Luar nos Dias (Poesia Completa), 1993 ; 2000
- Memória da Sombra, versos para esculturas de António Matos (Poesia), 1993
- D. João e Julieta, peça escrita em 1959 (Teatro), 1999
- A Ibericidade na Dramaturgia Portuguesa (Ensaio), 2000
- Breve História da Mulher e outros escritos (Antologia de textos de imprensa), 2003
- A Estrela de Cada Um (Antologia de textos de imprensa), 2004
Categoria:Poetas de Portugal
Categoria:Região Autónoma dos Açores
