Peronismo

Keywords: Peronismo

O peronismo foi um grito de revolta popular, obviamente estimulada pelo carisma pessoal de Perón, contra os desmandos e as manipulações oligárquicas da década infame. Sem levar isto em conta não se compreende como Perón, derrubado do poder no final de 1945, já no contexto da Guerra Fria, tenha sido tirado da prisão pela pressão popular, e tenha sido vitorioso nas eleições de 1946, enfrentando uma coligação que reuniu todos os demais partidos políticos argentinos. No peronismo estava também a recusa da Argentina européia e cosmopolita. O povo significa a emergência de uma Argentina profunda e voltada para suas raízes. Um novo divisor de águas que tinha vindo para ficar, e ocupar a cena da segunda metade do século XX.

A opinião corrente, própria do argumento liberal e do partido radical, de que todas as desgraças da Argentina tiveram início com Perón, é exagerada e despropositada. Perón certamente fez mal à Argentina de vários pontos de vista. Mas o problema é que o antiperonismo foi freqüentemente pior. Antes de mais nada porque, na medida em que o radicalismo só conseguiu ganhar eleições em que o peronismo não concorreu – depois do golpe de 55 que derrubou Perón o justicialismo esteve eleitoralmente banido –, o antiperonismo foi representado pelos militares, que ou tutelaram governos radicais, como foi o caso de Frondizi, eleito em 58 e derrubado em 62, e de Ilia, eleito em 63 e derrubado em 66, ou assumiram abertamente a forma de ditaduras, altamente repressivas.

Banido ou não, o peronismo era, e de certa maneira continua sendo, a maior força eleitoral da Argentina. Mas o radicalismo tem a sua história e a sua tradição. Não é possível governar a Argentina sem que os dois partidos se entendam. A falta de diálogo e de acordo entre os dois persistiu no período de institucionalidade democrática que se abriu em 1983, depois da aventura das Malvinas e do fim da ditadura que tinha chegado ao poder em 1976. Durante os governos de Alfonsín, de Menem e de De la Rúa o abismo que sempre existiu na política argentina, primeiro entre radicais e conservadores e depois entre peronistas e radicais, continuou a existir. A saída para a crise Argentina pode não estar à vista, mas sem dúvida o pacto político presente na indicação de Duhalde para a presidência e na formação de seu governo é um bom começo de caminhada.

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