Preconceito lingüístico

Keywords: Preconceito lingüístico, 1920, 1971, 2000, Brasil, Chico Buarque, Ditadura militar, Idioma

O preconceito lingüístico é uma forma de preconceito a determinadas variedades lingüísticas.

Os estudos científicos da Lingüística apontam que não existem erros gramaticais nas línguas naturais, salvo patologias de ordem cognitiva. Para a Lingüística, a gramática normativa (que é apenas um tipo de gramática; porém o único tipo que alunos estudam usualmente durante o ensino médio) estabelece um padrão lingüístico para, entre outros inúmeros motivos possíveis, a estruturação de um estado-nacional. O problema surge na aplicação desse padrão, que acaba por vezes adquirindo uma noção de correto, originando assim o que se chama preconceito lingüístico, ou seja, preconceito contra as variedades não-padrão. Seria ingenuidade, contudo, imaginar que as línguas naturais devam se cristalizar devido à existência da gramática normativa, fato que não há registro em toda a história da humanidade. As línguas mudam ao longo do tempo e não é preciso selecionar um vasto período para perceber tais mudanças, como por exemplo, trechos do português de 1920 são distintos do português falado em 2000, ou, no contexto escrito, qualquer texto anterior à reforma ortográfica de 1971. Sendo assim, imaginar que as variedades lingüísticas que fogem ao padrão (imposto politicamente pelas Academias de Letras, em geral) são variedades erradas, problemáticas, é assumir uma postura um tanto ingênua em relação às línguas naturais, desconsiderando suas características mais intrínsecas e naturais.

Tal argumentação se torna sólida ao lembrarmos que as diferenciações ocorridas durante séculos em várias localidades são as responsáveis por gerarem novos idiomas. Os "puristas", para esses especialistas, estariam lutando contra algo absolutamente normal e rico: por meio da diversidade lingüística temos, também, a diversidade cultural. Basta lembrar as brincadeiras textuais que fazem sentido apenas em seu idioma original.

Um bom exemplo é uma música composta durante a ditadura militar no Brasil, chamada "Cálice", de Chico Buarque. Dava aos mais distraídos a impressão de ser apenas mais um cântico religioso. No entanto, o nome dela e pessoas fazendo segunda-voz, discretamente ao fundo, repetindo o nome da música, faz perceber que se estava a querer dizer "cale-se", ordem de parar de falar.

O sociólogo Nildo Viana enriqueceu a discussão sobre preconceito lingüístico apresentando uma visão marxista deste fenômeno, relacionando-o com a educação escolar e a dominação de classe, bem como questionando pesquisadores deste tema. Para Viana, a linguagem é um fenômeno social e está ligada ao processo de dominação, tal como o sistema escolar, que é a fonte da "dominação lingüística". A ligação indissolúvel entre linguagem, escrita e educação com os processos de dominação, segundo o autor, é a fonte do preconceito lingüístico, pois a língua escrita veiculada pela escola se torna a língua padrão e esta se torna norma geral que todos devem seguir, mas o seu modelo se encontra entre os setores privilegiados e dominantes da sociedade. Assim, a escola é a base do preconceito lingüístico e este reproduz as desigualdades sociais.

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