Reforma Protestante

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[[Imagem:Luther46c.jpg|thumb|300px|Martinho Lutero aos 46 anos (Lucas Cranach o Velho, 1529)]] A Reforma Protestante foi um movimento que começou no século XVI com uma série de tentativas de reformar a Igreja católica romana, mas que terminou na divisão e no estabelecimento de várias igrejas cristãs, das quais se destacam o Luteranismo (de Martinho Lutero), as igrejas reformadas e os Anabaptistas. A reforma protestante tem um intuito moralizador, colocando em plano de destaque a moral do indivíduo (conhecedor agora dos textos religiosos, após séculos em que estes eram o domínio privilegiado dos membros da hierarquia eclesiástica). O biógrafo de João Calvino, o francês Bernard Cottret, escreve: "Com o Concílio de Trento (1545-1563)... trata-se da racionalização e reforma da vida do clero. A reforma protestante é para ser entendida num sentido mais extenso: ela denomina a exortação ao regresso aos valores cristãos de cada indivíduo. Uma reforma da vida monástica ou certamente da Igreja, é estendida pelo protestantismo a uma reforma que abrange também os laios".

Um elemento comum às igrejas que surgem da reforma protestante é esta centralização no indivíduo. Cottret: "A reforma cristã, em toda a sua diversidade, aparece centrada na teologia da salvação. A salvação, no cristianismo, é forçosamente algo de individual, diz mais respeito ao indivíduo do que à comunidade. Pense-se em Lutero: como melhor descrever os receios do irmão Martinho, o monge que se preocupa com a sua salvação, do que no "modus personalis"? "Apenas a experiência e ela só faz o teólogo". Este aforismo de Lutero do ano 1531 caracteriza bem a importância da história pessoal de cada um para a causa reformadora. Lutero não é nenhum fundador de um império, ele é um monge em busca da sua salvação. A sua história "declina-se na primeira pessoa do singular". Como Pierre Chaunu mostrou de forma extraordinária, na quebra da tradição protestante não se trata de uma questão da Igreja mas de uma questão da salvação".

O resultado deste movimento religioso é uma mais ferverosa observação dos princípios morais cristãos tais como eles estão expressos na Bíblia. Os movimentos de zelo religioso que têm lugar na Europa do século XVI são para ser entendidos no contexto do efeito multiplicador iniciado pela invenção da imprensa por Gutenberg. Se a bíblia não estivesse agora acessível a cada um, traduzida nas línguas e dialectos locais, compreensível aos Europeu, tal como ela começou a surgir no século XVI, tal zelo religioso não teria sido possível. Anteriormente ao século XVI, a bíblia era um manuscrito em Latim, (uma língua dominada por uma minoria) do qual havia poucas cópias, que se encontravam fechadas nos conventos e nas igrejas, lida por uma elite eclesiástica. A grande maioria da população nunca a tinha lido. No século XVI, ela está disponível em grandes números e nas línguas e dialectos locais. Não é de admirar pois que a religião se torne um tema polémico.

Conteúdo

Raízes da Reforma Religiosa

Início da Reforma

Factor tecnológico fundamental: A recente invenção da imprensa

Por volta de 1450-1455 tinha sido impresso pela primeira vez um livro: uma bíblia. A Biblia Latina, impressa por João Gutenberg, com uma edição de cerca de 150 exemplares, uma revolução tecnológica, certamente, mas que dá início a uma revolução social. Até aqui, na Idade Média, os livros eram copiados à mão. A bíblia era um luxo, exclusivo aos elementos da Igreja. A maioria da população, analfabeta, conhece a Bíblia apenas de forma lacunar, das visitas à Igreja.

Nos anos seguintes à invenção da imprensa irão surgir milhares de bíblias em circulação, impressas primeiro em latim, mas também em Grego, e depois em Inglês, Alemão, Francês, e demais línguas e dialectos. Coloca-se agora com maior acutilância a questão de descobrir as versões mais "correctas" da Bíblia, a exegese torna-se uma prática comum. Estamos na era de humanistas como Erasmo de Roterdão. Torna-se também evidente que há uma problemática intrínseca à tradução de textos. Como traduzir a palavra grega "presbyterus" ? "Padre", como pretendem os católicos ? Ou "o mais velho" como pretendem alguns protestantes ? Como interpretar as muitas contradições dos textos bíblicos? Se no passado, quando a Bíblia era um elemento de decoração dos mosteiros e de Igrejas, estas questões não se colocaram com grande urgência, agora que as bíblias apareciam nas estantes das famílias educadas e eram lidas em massa, o tema torna-se mais importante.

Factores Demográficos e Económicos Subjacentes

A revolta histórica produz normalmente uma nova forma de pensamento quanto à forma de organização da sociedade. Assim foi com a Reforma Protestante. No seguimento do colapso de instituições monásticas e do escolasticismo nos finais da Idade Média na Europa, acentuado pela "Captividade Babilónica" do papado de Avignon, o Grande Cisma e o falhanço da conciliação, assistimos no século XVI ao fermentar de um enorme debate sobre a reforma da religião e dos posteriores valores religiosos fundamentais. Este debate passou completamente ao lado de Portugal, demasiado distante do foco onde surgiram estas ideias. A imprensa, inventada na Alemanha por João Gutenberg, foi importante na divulgação destas ideias. As 95 Teses de Martinho Lutero foram imediatamente impressas e divulgadas por todas as regiões de língua alemã, o que contribuiu para a crescente popularidade de Martinho Lutero. Não menos relevante foi a influência da pressão social exercida pela Contra-Reforma, na qual os Jesuítas tiveram um papel de liderança. A Inquisição e a censura exercida pela igreja católica foram igualmente determinantes para evitar que as ideias reformadoras encontrassem divulgação em Portugal, Espanha ou Itália, países católicos.

Historiadores assumem geralmente que a incapacidade de reformar (grande número de interesses legítimos, falta de coordenação na coligação dos reformadores) poderia levar a uma grande revolta ou revolução, uma vez que o sistema deverá ser gradualmente ajustado ou então desintegrar-se. O falhanço da conciliação levou à reforma protestante do ocidente europeu. Estes movimentos reformistas frustrados variam desde o nominalismo, a moderna devoção, ao humanismo, e ocorrem em conjunção com o crescente desagrado perante a riqueza e o poder da elite clerical, sensibilizando a população para a corrupção moral e financeira da igreja.

A Reforma Religiosa e Política na Inglaterra

[[Imagem:Henry8.jpg|thumb|]] O curso da reforma foi diferente na Inglaterra. Tinha havido desde há muito uma forte corrente anti-clerical, tendo a Inglaterra já tido o movimento Lollard, que inspirou os Hussitas na Boémia. Mas em cerca de 1520, no entanto, os Lollards não eram já uma força activa, ou pelo menos um movimento de massas. O carácter diferente da Reforma Inglesa deve-se ao facto de ter sido promovida inicialmente pelas necessidades políticas de Henrique VIII. Apesar de Henrique ter sido um católico sincero, ele achou vantajoso quebrar com o Papado e substituí-lo pela coroa inglesa. O decreto "Act of Supremacy" colocou Henrique na liderança da Igreja em 1534.

Entre 1553 e 1540, sob Thomas Cromwell, a política conhecida como a dissolução dos mosteiros foi posta em prática. A veneração de santos, locais de peregrinação foram atacados. Enormes extensões de terras e propriedades da Igreja passaram para as mãos da coroa e posteriormente da nobreza e das classes altas. Os direitos adquiridos foram uma força poderosa de apoio às dissoluções.

Houve muitos opositores da Reforma de Henrique, tais como Thomas More e o Bispo John Fisher, que foram executados pela sua oposição. Mas também existiu um partido crescente de Protestantes genuínos que estavam inspirados pelas doutrinas então correntes no continente. Quando Henrique foi sucedido pelo seu filho Eduardo VI em 1547, os protestantes viram-se em ascendente no governo. Uma reforma mais radical foi imposta, incluindo a abolição da missa, destruição de imagens e o fecho de capelas. Seguiu-se uma breve reacção católica durante o reinado de Maria I, 1553-1558. Um consenso começou a surgir durante o reinado de Isabel I, de onde podemos datar as origens do Anglicanismo. O compromisso foi difícil, e foi capaz de evitar o extremo Calvinismo por um lado e o Arminianismo por outro, mas a reforma foi relativamente bem sucedida, comparada com o estado caótico da França contemporânea.

O sucesso da Contra-Reforma no continente e o crecimento de um partido puritano dedicado a estender a reforma protestante polarizou a era Elizabetana, apesar de a Inglaterra não ter tido até 1640 lutas religiosas comparáveis às dos seus vizinhos.

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