Relatividade restrita
Keywords: Relatividade restrita, 1905, 1916, Aceleração, Ad hoc, Albert Einstein, Autómato celular, C, Campo
A Teoria Restrita (ou Especial) da Relatividade (abreviadamente, TRR), publicada pela primeira vez por Albert Einstein em 1905, descreve a física do movimento na ausência de campos gravitacionais. Antes, a maior parte dos físicos pensava que a mecânica clássica de Isaac Newton, baseada na chamada relatividade de Galileu (origem das equações matemáticas conhecidas como transformações de Galileu) descrevia os conceitos de velocidade e força para todos os observadores (ou sistemas de referência). No entanto, Hendrik Lorentz e outros, comprovaram que as equações de Maxwell, que governam o electromagnetismo, não se comportam de acordo com a transformação de Galileu quando o sistema de referência muda (por exemplo, quando se considera o mesmo problema físico a partir do ponto de vista de dois observadores com movimento uniforme um em relação ao outro). A noção de transformação das leis da física no que diz respeito aos observadores é a que dá nome à teoria, à qual se apõe o qualificativo de especial ou restrita por cingir-se apenas aos sistemas em que não se têm em conta os campos gravitacionais. Uma generalização desta teoria é a Teoria Geral da Relatividade, publicada igualmente por Einstein em 1916, incluindo os ditos campos.
| Conteúdo |
Motivação da teoria
As leis de Newton consideram que tempo e espaço são os mesmos para os diferentes observadores dum mesmo fenómeno físico. Antes da formulação da TRR, Hendrik Lorentz e outros tinham descoberto que o electromagnetismo não respeitava a física newtoniana já que as observações dum fenómeno podiam diferir para duas pessoas que se estivessem a mover uma em relação à outra a velocidades próximas das da luz. Assim, uma pode observar a inexistência dum campo magnético enquanto a outra observa o dito campo no mesmo espaço físico.
Lorentz sugeriu a teoria do éter, pela qual objectos e observadores viajariam através dum éter estacionário, sofrendo um encurtamento físico (hipótese da contracção de Lorentz) e uma mudança na duração do tempo (dilatação do tempo). Isto implicava uma reconciliação parcial entre a física newtoniana e o electromagnetismo, que se conjugavam, aplicando a transformação de Lorentz, que viria a substituir a transformação de Galileu vigente no sistema newtoniano. Quando as velocidades envolvidas são muito menores que c (velocidade da luz), as leis resultantes são, na práctica, as mesmas que na teoria de Newton, reduzindo-se as transformações às de Galileu. De qualquer forma, a teoria do éter foi criticada ainda pelo mesmo Lorentz devido à sua natureza ad hoc.
Quando Lorentz sugeriu a sua transformação como uma descrição matemática precisa dos resultados experimentais, Einstein derivou as mesmas equações de duas hipóteses fundamentais: a constância da velocidade da luz, c, e a necessidade de que as leis da física sejam iguais (ou seja, invariantes) em diferentes sistemas inerciais para diferentes observadores. Desta ideia surgiu o título original da teoria: “Teoria dos invariantes“. Foi Max Planck quem sugeriu depois o termo "relatividade" para ressaltar a noção de transformação das leis da física entre observadores movendo-se relativamente entre si.
A relatividade restrita estuda o comportamento de objectos e observadores que permanecem em repouso ou em movimento uniforme (i.e., velocidade relativa constante). Neste caso, diz-se que o observador está num sistema de referência inercial. A comparação de espaços e tempos entre observadores inerciais pode ser realizada usando as transformações de Lorentz. A teoria especial da relatividade pode predizer, desta forma, o comportamento de corpos acelerados desde que a dita aceleração não implique forças gravitacionais, caso em que é necessário socorrermo-nos da relatividade geral.
Invariância da velocidade da luz
Para fundamentar a TRR, Einstein postulou que a velocidade da luz no vácuo é a mesma para todos os observadores inerciais. Da mesma forma, ressaltou que toda teoria física deve ser descrita por leis que tenham forma matemática semelhante em qualquer sistema de referência inercial. O primeiro postulado está em concordância com as equações de Maxwell do electromanetismo, e o segundo utiliza um princípio de razão lógica, tal como o principio antrópico.
Einstein fez derivar destes princípios as equações de Lorentz. Ao aplicá-las segundo estes conceitos, a mecânica resultante tem várias propriedades interessantes:
- Quando as velocidades dos objectos considerados são muito menores que a velocidade da luz, as leis resultantes são as descritas por Newton.
Da mesma forma, o electromagnetismo não é, já, um conjunto de leis que necesite de uma transformação diferente da aplicada em mecânica.
- O tempo e o espaço deixam de ser invariantes ao mudar de sistema de referência, passando a ser dependentes das velocidades relativas dos sistemas de referência dos observadores: dois eventos que ocorrem simultaneamente em lugares diferentes de um mesmo sistema de referência podem ocorrer em tempos diferentes noutro sistema de referência (a simultaneidade é relativa). Da mesma forma, se ocorrem no mesmo lugar num sistema, podem ocorrer en lugares diferentes noutro.
- Os intervalos temporais entre acontecimentos dependem do sistema de referência em que estes são medidos (por exemplo, o célebre paradoxo dos gémeos. As distâncias entre ocorrências também.
As duas primeiras propriedades eram atraentes, pois qualquer nova teoria deve explicar as observações já existentes, e estas indicavam que as leis de Newton continuavam a ser necessárias. A terceira conclusão foi inicialmente mais discutida, pois deitava por terra muitos conceitos ben conhecidos e aparentemente óbvios, como o conceito de simultaneidade.
Inexistência de um sistema de referência absoluto
Outra consequência é a rejeição da noção de um único sistema absoluto de referência. Antes cria-se que o universo viajava através duma substância conhecida como éter (identificável como o espaço absoluto) em relação à qual podiam ser medidas velocidades. Agora, com os resultados de várias experiências, que culminaram na famosa experiência de Michelson-Morley, sugeriram: ou a Terra estava sempre estacionária (o que é absurdo), ou a noção de um sistema de referência absoluto era errónea e devia ser rejeitada. Einstein concluiu, com sua teoria especial da relatividade, que qualquer movimento é relativo, não existindo nenhum conceito universal de "estado estacionário".
Equivalência de massa e energia
Pode ser, no entanto, muito mais importante a demostração de que a energia e massa, antes consideradas propriedades mensuráveis diferenciadas, eram equivalentes, e relacionavam-se através da que é, sem dúvida, a equação mais famosa da teoria:
onde E é a energia, m é a massa e c é a velocidade da luz no vazio. Se o corpo se está a mover à velocidade v relativa ao observador, a energia total do corpo é:
- E = γmc2, onde
O γ é frequente en relatividade. Deriva das equações de transformação de Lorentz.
Quando v é muito menor que c pode-se usar uma aproximação de γ (obtida pelo desenvolvimento em série de Taylor),
igual à energia em repouso, mc2, mais a energia cinética newtoniana, ½mv2. Este é um exemplo de como as duas teorias coincidem quando as velocidades são pequenas.
Além do mais, à velocidade da luz, a energia será infinita, o que impede que as partículas que têm massa em repouso possam alcançar a velocidade da luz.
A implicação mais prática da teoria é que põe um limite superior às leis(ver Lei da natureza) da Mecânica clássica e gravidade propostas por Isaac Newton quando as velocidades se aproximam da luz. Nada que possa transportar massa ou informação pode mover-se mais rápido que a dita velocidade. Quando um objecto se aproxima da velocidade da luz (em qualquer sistema) a quantidade de energia requerida para continuar a aumentar a sua velocidade aumenta de forma rápida e assimptótica até ao infinito, tornando impossível alcançar a velocidade da luz. Só partículas sem massa, como os fotões, podem alcançar dita velocidade (além disso, devem mover-se em qualquer sistema de referência a essa velocidade) que é aproximadamente 300000 quilómetros por segundo (3·108 ms-1).
O nome taquião foi usado para nomear partículas hipotéticas que deslocar-se-iam sempre a uma velocidade superior à da luz. Actualmente ainda não há evidência experimental da sua existência.
A relatividade especial também afirma que o conceito de simultaneidade é relativo ao observador: Se a matéria pode viajar ao longo de uma linha (trajectória) no espaço-tempo sem mudar de velocidade, a teoria chama a esta linha intervalo temporal, pois, um observador, seguindo-a, não poderia sentir movimento (estaria em repouso), a não ser viajar no tempo de acordo com o seu sistema de referência. De forma semelhante, um intervalo espacial significa uma linha recta no espaço-tempo ao longo da qual nem a luz nem outro sinal mais lento poderiam viajar. Acontecimentos ao longo de um intervalo espacial não podem influenciar-se um ao outro transmitindo luz ou matéria, e podem aparecer como simultâneos a um observador num sistema de referência adequado. Para observadores en diferentes sistemas de referência, o acontecimento A pode parecer anterior a B ou vice-versa. Isto não sucede quando consideramos acontecimentos separados por intervalos temporais.
A Relatividade Restrita é quase universalmente aceite pela comunidade física na actualidade, ao contrário da Relatividade Geral que, apesar de ter sido confirmada, foi-lo com experiências que indicam para teorias alternativas da gravitação. Efectivamente, há ainda quem se opõe à TRR em vários campos, tendo sido propostas várias alternativas, como as chamadas Teorias do Éter.
A Teoria
A TRR usa tensores ou quadrivectores para definir un espaço não-euclidiano (pseudo-euclidiano). Este espaço, na realidade, é semelhante em muitos aspectos, sendo fácil de trabalhar. O diferencial da distância (ds) num espaço euclidiano é definida como:
- ds2=dx12+dx22+dx32
onde dx1, dx2, dx3 são diferenciais das três dimensões espaciais. Na geometria da relatividade especial, uma quarta dimensão, o tempo, foi acrescentada, mas é tratada como uma quantidade imaginária com unidades de tempo, ficando a equação para a distância, em forma diferencial, como:
- ds2=dx12+dx22+dx32-c2dt2
Se reduzirmos as dimensões espaciais para duas, podemos fazer uma representação física num espaço tridimensional,
- ds2=dx12+dx22-c2dt2
Podemos ver que as geodésicas com medida nula formam um cone duplo,
Imagem:RelEsp1.png
definido pela equação
- ds2=0=dx12+dx22-c2dt2
, ou
- dx12+dx22=c2dt2
A equação anterior é igual à equação do círculo com r=c*dt. Se generalizarmos o anteriormente exposto às três dimensões espaciais, as geodésicas nulas tornam-se esferas concêntricas, com raio = distância = c*(+ ou -)tempo.
Imagem:RelEsp3.png
- ds2=0=dx12+dx22+dx32-c2dt2
- dx12+dx22+dx32=c2dt2
Este cone duplo de distâncias nulas representa o "horizonte de visão" de um ponto no espaço. Isto é, quando, ao olharmos uma estrela da qual dizemos "A estrela da qual estou a receber luz tem X anos", estamos a vê-la através dessa linha de visão: uma geodésica de distância nula. Estamos a ver um acontecimento que se deu a Imagem:60f9a792ce08526a5d12f5df47eebf81.png metros, e d/c segundos no passado. Por esta razão, o duplo cone é também conhecido como cone de luz. (O ponto inferior da esquerda do diagrama representa a estrela, a origem representa o observador e a linha representa a geodésica nula, o "horizonte de visão" ou cone de luz.)
Geometricamente, todos os "pontos" ao longo do cone de luz dão informação (representam) o mesmo ponto no espaço-tempo (já que a distância entre eles é 0). Isto pode ser concebido como 'um ponto de neutralização' de forças. ("A conecção produz-se quando dois movimentos, cada um deles excluindo o outro, se juntam num momento." - diz James Morrison) É onde os acontecimentos no espaço-tempo se intersectam, onde o espaço interactua consigo mesmo. É como um ponto por onde o resto do universo é visto. O cone, na região -t inclui a informação que o ponto recebe, enquanto que a região +t do cone engloba a informação que o ponto envia. Desta forma, o que podemos ver é um espaço de horizontes de visão
Imagem:RelEsp2.png
recaindo no conceito de autómatos celulares, aplicando-o numa sequência contínua espaço-temporal. Isto é também verdade para pontos em movimento uniforme de traslação relativo - sistemas inerciais.
Isto significa que a geometria do universo permanece a mesma, qualquer que seja a velocidade(δx/δ t) (inercial) do observador. Assim, voltamos à lei do movimento de Newton: um objecto em movimento tende a permanecer em movimento; um objecto em repouso tende a permanecer em repouso.
Lei da conservação da energia cinética
thumb|right|300px| Representação gráfica da curvatura espaço-tempo No entanto, a geometria não se mantém constante quando existe aceleração (δx2/δ t2) , já que envolve uma aplicação de força (F=ma), e, por consequência, uma mudança na energia, o que nos faz chegar à relatividade geral, em que a curvatura intrínseca do espaço-tempo é directamente proporcional à densidade de energia no ponto referido.
Modificações da relatividade restrita
Com o início do século XXI foram propostas várias versõs modificadas da TRR.
Confirmação experimental da teoria da relatividade restrita
Ver:
- Experiência de Michelson-Morley – deriva do éter.
- Experiência de Hamar – obstrução do fluxo de éter.
- Experiência de Trouton-Noble - Momento de torção num capacitor
- Experiência de Kennedy-Thorndike – contracção do tempo.
Links externos
Categoria:Física
