Reprodutibilidade Técnica
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"A obra de arte na época de sua Reprodutibilidade técnica"
Baseado no ensaio de Walter Benjamin
O artigo busca responder, na visão frankfurtiana de Benjamin, qual a influência das técnicas de reprodução na criação artística?
INTRODUÇÃO
A reprodutibilidade técnica da obra de arte - possibilitada com os avanços tecnológicos consolidados na atualidade - gerou novas formas de encarar a arte, tanto do ponto de vista do espectador, quanto do criador. Conforme Walter Benjamin, essa possibilidade "multiplicativa fere os valores que convertiam, até agora, a obra numa espécie de sucedâneo de uma experiência religiosa". A arte seria suportada por 3 elementos: aura, valor cultural e autenticidade. Esses três valores geravam a noção de beleza sobre a qual a estética clássica repousava.
A REPRODUTIBILIDADE TÉCNICA E A CRIAÇÃO ARTÍSTICA
A reprodutibilidade técnica não é fato de tempos atuais. Por princípio, a obra de arte sempre foi reproduzível. Discípulos copiavam visando exercício, falsários almejando ganho material, mestres buscando a difusão da obra. Por outro lado, as técnicas de reprodução remontam a um passado mais recente, que, por etapas sucessivas, desenvolveram-se pelo curso da história: a fundição, o relevo por pressão, a xilogravura, a litografia, a imprensa, a fotografia, o cinema...
A fotografia gerou a primeira revolução no que tange ao papel da criação artística. "Pela primeira vez a mão se liberou das tarefas artísticas essenciais, no que toca à reprodução das imagens, as quais, doravante, foram reservadas ao olho fixado sobre a objetiva. Todavia, como o olho apreende mais rápido do que a mão desenha, a reprodução das imagens pode ser feita, a partir de então, num ritmo tão acelerado que consegue acompanhar a própria cadência das palavras.", conforme Walter Benjamin.
Atualmente as técnicas de reprodução atingiram tal nível de perfeição, que acabam se impondo como formas originais de arte. E mais: os três pontos sobre os quais se assentam a noção clássica de beleza, são diretamente influenciados pela reprodutibilidade técnica.
Vale refletirmos um pouco sobre o próprio ato de criar. Recorramos a Fernando Pessoa, sob o heterônimo de Alberto Caeiro:
"O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo."
Fernando Pessoa/Caeiro une duas palavras que por costume estão separas, e até em oposição: eterna e novidade. O eterno é o que atemporal, está sempre idêntico a si mesmo, o novo é mudança, temporalidade, inovação. E essa unidade entre o eterno e o novo é possível, sim, aos humanos. Chama-se arte.
Esse "pasmo essencial" é justamente o germe da aura, pois, como assevera Walter Benjamin, a aura é "uma figura singular, composta de elementos especiais e temporais: a aparição única de uma coisa distante, por mais perto que ela esteja. Observar, em repouso, numa tarde de verão, uma cadeia de montanhas no horizonte, ou um galho, que projeta sua sombra sobre nós, significa respirar a aura dessas montanhas, desse galho.".
A homogeneização da arte, impetrada sobretudo pela reprodutibilidade técnica, por essa diluição da cultura, por essa estereotipação do saber, atende a interesses, grosso modo, financeiros.
"ARTE E SÍNTESE"
Arte não é só "fazer": é também esperar. (...)
Picasso é como o câncer às avessas. Sua arte múltipla e prolífica representa uma tremenda afirmação de vida, pois o grande andaluz reformula-se constantemente, até quando varia sobre o mesmo tema. O quadro é para ele como um abismo onde se lança de cabeça, e que uma vez possuído, repele-o fora, como uma mulher violentada. Porque Picasso é dos poucos artistas de qualquer época a quem o abismo teme. O abismo teme esse louco saltimbanco que se atira no vácuo da tela sem saber se vai voltar – e volta sempre. De quantos mais, no nosso século, se pode dizer o mesmo?
A arte não ama os covardes: e essa afirmação não pode ser mais antifascista. A arte, há que domá-la como a um miúra: e para tanto é preciso viver sem medo. Não a coragem idiota dos que se arriscam desnecessariamente, em franco desrespeito a esse terrível postulado da vida, que ordena uma preservação constante, de maneira a se estar sempre apto para os seus grandes momentos. (...)
Eu conheço artistas que não se dão mais sequer o trabalho de mergulhar no que fazem, no ato de criar. Trabalham mecanicamente, a partir de um métier adquirido, e elaboram sua obra dentro de esquemas predeterminados por uma síntese atingida. E ficam jogando boxe com a sombra, justificando-se de sua impotência criadora com a auto-satisfação do próprio virtuosismo; aparentemente vaidoso de sua rigidez temática, mas no fundo sabendo que se encontram diante desse fatal impasse em que esbarram sempre os que se recusam às fontes mais generosas da vida e da criação.(...)
(Moraes, Vinícius de, Rio de Janeiro, 08.09.1969, in Poesia completa e prosa: "Crônicas"e disponível em: Site Oficial Vinícius de Moraes )
Embora a reprodutibilidade técnica seja patente, à esta sempre falta alguma coisa. É o que Benjamin chama de hic et nunc, ou "aqui e agora", em tradução literal. É a "unicidade de sua presença no próprio local onde ela se encontra". O hic et nunc do original é o que se chama de autenticidade, e esta, não tem sentido para uma reprodução, técnica ou não.
"Ainda que as novas condições assim criadas pela técnica de reprodução não alterassem o próprio conteúdo da obra de arte, de qualquer modo desvalorizam seu hic et nunc. O que faz com que uma coisa seja autêntica é tudo o que ela contém de originariamente transmissível, desde a sua duração material até seu poder de testemunho histórico". (Benjamin, Walter)
A aura da obra de arte é o fragmento mais atacado com a reprodutibilidade. "Multiplicando-lhe os exemplares, elas substituem por um fenômeno de massa um evento que não se produziu senão uma vez. Permitindo ao objeto reproduzido oferecer-se à visão ou à audição em qualquer circunstância, elas lhe conferem uma atualidade. Esses dois processos, conduzem a um considerável abalo da realidade transmitida: ao abalo da tradição." (Benjamin, Walter)
Conquanto alguns autores já produzem visando essa multiplicação, muda-se por conseguinte os interesses inerentes à criação artística.
E a obra de arte, possui, diametralmente, dois valores básicos: o valor da obra de arte como objeto de culto e o valor como realidade capaz de ser exposta. A produção artística destinada ao culto demonstra que, o mais das vezes, tão-só a presença dessas imagens tenha mais importância do que o fato de serem vistas. "A preponderância absoluta do valor de culto, fizera da obra de arte sobretudo um instrumento mágico; só muito mais tarde ela seria reconhecida como obra de arte. Hoje, do mesmo modo, a preponderância absoluta de seu valor expositivo lhe empresta funções inteiramente novas, entre as quais pode ocorrer que aquela da qual temos consciência, a função artística, apareça depois como acessória. (...) A fotografia, e mais ainda, o cinema, são claros testemunhos nessa direção." (Benjamin, Walter).
Por sua vez, o filme modificou ainda mais intensamente as interpretações artísticas. Enquanto no teatro, além da aura do ator, a própria aura da platéia modifica o resultado no palco, no cinema o filme empacotado e industrializado é entregue aos espectadores, que não causam influência alguma na representação, apenas reproduzida em diversas películas. O método de gravação do cinema destrói qualquer vestígio de aura que pudesse haver, porquanto o ator encena para aparelhos eletrônicos, de maneira fragmentada, cabendo a uma edição em estúdios a montagem do filme. O ator pode gravar uma cena em que ele descobre uma traição e, logo após, ter que gravar uma cena em que ele ainda não sabe dessa traição. A continuidade se perde, juntamente com a aura (e o hic et nunc). Como resume Benjamin, "o filme não pode propiciar ilusão senão em segundo grau, isto é, após se ter realizado a montagem das sequências".
"As técnicas de reprodução aplicadas à obra de arte modificam a atitude da massa diante da arte." E continua Benjamin: "Muito reacionária diante, por exemplo, de um Picasso, a massa mostra-se progressista diante, por exemplo, de um Chaplin. A característica de um comportamento progressista reside no fato de o prazer do espetáculo e a experiência vivida correspondente ligaram-se, de modo direto e íntimo, à atitude do conhecedor. Esta ligação tem importância social. À medida que diminui a significação social de uma arte, assisti-se no público um divórcio crescente entre o espírito crítico e a fruição da obra".
"Ao escrever sobre a mudança das artes, nos anos 30, Benjamin tinha presente uma realidade e uma esperança. A realidade era o nazi-fascismo e a guerra; a esperança, a revolução socialista.
A primeira havia transformado a política e a guerra em espetáculos artísticos: Benjamin fala na estetização da política e da guerra, transformadas em obras de arte pela propaganda e pelos grandes espetáculos de massa, nos quais jogos, paradas militares, danças, ginástica, discursos políticos e música formavam um conjunto ou uma totalidade visando a tocar fundo nas emoções e paixões mais primitivas da sociedade. Nessa perspectiva, a reprodutibilidade técnica das artes estava a serviço da propaganda de mobilização totalitária das classes sociais em torno do “grande chefe”.
Ao contrário, a esperança na revolução socialista como emancipação do gênero humano levava Benjamin a considerar favoravelmente a perda da aura e a reprodutibilidade da obra de arte como processo de democratização da Cultura, como direito de acesso às obras artísticas por toda a sociedade e, especialmente, pelos trabalhadores. Em lugar de a arte ser um privilégio de uma elite, seria um direito universal.
A esperança de Walter Benjamin malogrou. Embora o nazi-fascismo houvesse terminado com o final da Segunda Guerra Mundial, a massificação propagandística da arte não terminou com ele: foi incorporada pelo stalinismo (que desfigurou e destruiu qualquer esperança socialista) e pela indústria cultural dos países capitalistas. Surgia a cultura de massas." (Convite à Filosofia / Chaui, Marilena / Ed. Ática, São Paulo, 2000.)
(Trabalho apresentado à disciplina de Sociologia da Comunicação, ao professor Diogo Tourino, FACOM/UFJF, adaptado pelo próprio autor. Copyleft.)
Veja Também
- Escola de Frankfurt
- Walter Benjamin
- Kuturindustrie
